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“Então é verdade, no Brasil é duro ser negro?”

Mulher negra com binóculos
Aparecida do Norte, 13/05/207

“Então é verdade, no Brasil é duro ser negro?”

A mais importante atriz de Moçambique sofre discriminação racial em São Paulo

Por Eliane Brum, Revista Época

Fazia tempo que eu não sentia tanta vergonha. Terminava a entrevista com a bela Lucrécia Paco, a maior atriz moçambicana, no início da tarde desta sexta-feira, 19/6, quando fiz aquela pergunta clássica, que sempre parece obrigatória quando entrevistamos algum negro no Brasil ou fora dele. “Você já sofreu discriminação por ser negra?”. Eu imaginava que sim. Afinal, Lucrécia nasceu antes da independência de Moçambique e viaja com suas peças teatrais pelo mundo inteiro. Eu só não imaginava a resposta: “Sim. Ontem”.
Lucrécia falou com ênfase. E com dor. “Aqui?”, eu perguntei, num tom mais alto que o habitual. “Sim, no Shopping Paulista, quando estava na fila da casa de câmbio trocando meus últimos dólares”, contou. “Como assim?”, perguntei, sentindo meu rosto ficar vermelho.
Ela estava na fila da casa de câmbio, quando a mulher da frente, branca, loira, se virou para ela: “Ai, minha bolsa”, apertando a bolsa contra o corpo. Lucrécia levou um susto. Ela estava longe, pensando na timbila, um instrumento tradicional moçambicano, semelhante a um xilofone, que a acompanha na peça que estreará nesta sexta-feira e ainda não havia chegado a São Paulo. Imaginou que havia encostado, sem querer, na bolsa da mulher. “Desculpa, eu nem percebi”, disse.

A mulher tornou-se ainda mais agressiva. “Ah, agora diz que tocou sem querer?”, ironizou. “Pois eu vou chamar os seguranças, vou chamar a polícia de imigração.” Lucrécia conta que se sentiu muito humilhada, que parecia que a estavam despindo diante de todos. Mas reagiu. “Pois a senhora saiba que eu não sou imigrante. Nem quero ser. E saiba também que os brasileiros estão chegando aos milhares para trabalhar nas obras de Moçambique e nós os recebemos de braços abertos.”

A mulher continuou resmungando. Um segurança apareceu na porta. Lucrécia trocou seus dólares e foi embora. Mal, muito mal. Seus colegas moçambicanos, que a esperavam do lado de fora, disseram que era para esquecer. Nenhum deles sabia que no Brasil o racismo é crime inafiançável. Como poderiam?

Lucrécia não consegue esquecer. “Não pude dormir à noite, fiquei muito mal”, diz. “Comecei a ficar paranoica, a ver sinais de discriminação no restaurante, em todo o lugar que ia. E eu não quero isso pra mim.” Em seus 39 anos de vida dura, num país que foi colônia portuguesa até 1975 e, depois, devastado por 20 anos de guerra civil, Lucrécia nunca tinha passado por nada assim. “Eu nunca fui discriminada dessa maneira”, diz. “Dá uma dor na gente. ”
Ela veio ao Brasil a convite do Itaú Cultural, que realiza até 26 de junho, em São Paulo, o Antídoto – Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito. Lucrécia apresentará de hoje a domingo (19 a 22/6), sempre às 20h, a peça Mulher Asfalto. Nela, interpreta uma prostituta que, diante de seu corpo violado de todas as formas, só tem a palavra para se manter viva.

Lucrécia e o autor do texto, Alain-Kamal Martial, estavam em Madagáscar, em 2005, quando assistiram, impotentes, uma prostituta ser brutalmente espancada por um policial nas ruas da capital, Antananarivo. A mulher caía no chão e se levantava. Caía de novo e mais uma vez se levantava. Caía e se levantava sem deixar de falar. Isso se repetiu até que nem mesmo eles puderam continuar assistindo. “Era a palavra que a fazia levantar”, diz Lucrécia. “Sua voz a manteve viva.” Foi assim que surgiu o texto, como uma forma de romper a impotência e levar aquela voz simbólica para os palcos do mundo.

Mais tarde, em 2007, Lucrécia montou o atual espetáculo quando uma quadrilha de traficantes de meninas foi desbaratada em Moçambique. Eles sequestravam crianças e as levavam à África do Sul. Uma menina morreu depois de ser violada de todas as maneiras com uma chave de fenda. Lucrécia sentiu-se novamente confrontada. E montou o Mulher Asfalto.

Não poderia imaginar que também ela se sentiria violada e impotente, quase sem voz, diante da cliente de um shopping em um outro continente, na cidade mais rica e moderna do Brasil. Nesta manhã de sexta-feira, Lucrécia estava abatida, esquecendo palavras. Trocou o horário da entrevista, depois errou o local. Lucrécia não está bem. E vai precisar de toda a sua voz – e de todas as palavras – para encarnar sua personagem nesta noite de estréia.

“Fiquei pensando”, me disse. “Será que então é verdade? Que no Brasil é difícil ser negro? Que a vida é muito dura para um preto no Brasil?” Eu fiquei muda. A vergonha arrancou a minha voz.

2 Responses Subscribe to comments


  1. altino

    em nome de todos os brasileiros descente que pode acreditar aqui tem.
    mil desculpas

    Jul 14, 2009 @ 4:43 PM


  2. benjamin abras

    Cara Eliane Brum! Sim,ser preto, negro, criolo,tiziu, pretinho, mulato…ou mesmo cor de burro fugido, é muuuuito complicado no Brasil.Primeiro pelos diminutivos constantes,pretinho,neguinho,criolinho que se extendem até a ignorancia diante de nossa cultura milenar, enraizada na cultura mestiça do Brasil. Nossa filosofia residente nos Candomblés,nos Reinados Reisados,Catimbos,Capoeiras Carimbos…ainda não foi completamente compreendida pelos ditos “brancos do país. É tão estranho,num país mestiço, ainda conseguirmos classificar Negros e Brancos? Será que este raciocínio não está meio tacanho e obsoleto? Será que a qualidade de ensino é realmente um lixo em todas as classes sociais,ou será que nós brasileiros ainda não sabemos mesmo que somos todos MESTIÇOS? Na realidade,quando digo que sou Branco ou Negro, é uma ação politica que se extende por todo o territótrio em que atuo!
    Ser Negro no Brasil ou melhor dizer-se Negro no Brasil, é assumir com isto a responsabilidade de representar uma cultura ( uma das muitas que nos compõem)e assim,enchergar para além da discriminação,caminhos que acendam os valores humanos presentes nesta cultura. Não há como fugir da realidade,quando buscamos ela, como caminho que sustente em verdade nossas ações. Lucrécia vivenciou uma vírgula do dia á dia de milhares de faxineiros,garçons,motoristas de ônibus,Boys,donas de casa,crianças. Certa vez eu brincava bem perto de uma loja,e como uma criança de bairro, graças a Oxalá ,eu andava pelado,desinibido,livre ( Eta tempo bom!)E o dono da loja me enxotou como se eu fosse um cachorro!Lá na minha inocência, eu não entendi, nem liguei…hoje compreendo bem este e vários outros atos que ocorreram em minha infancia.Ouvi muitas vezes: Arte não é prá pobre! Prá ser artista tem que ter FACULDADE!Ah! Pretinho isso é ilusão! Por conta disso sou: Poeta,Ator, Bailarino,Artista PLástico,Compositor,Cantor. E faço da arte uma via para tirar o véu dos humanos de nosso tempo.Pois a arte fala ao espirito. Mesmo que ele tente se enclaousurar num casulo de pedra…nossa agua,num caricia sutil, ha de penetrar!

    Jan 22, 2010 @ 12:33 PM

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