Missão cumprida

Após cinco anos, a atuação das forças brasileiras na pacificação do Haiti é considerada um caso de sucesso. A ONU agora quer nossos soldados em outros países

Leandro Loyola (texto) e Marcelo Min (fotos), de Porto Príncipe, Haiti, Revista Época #592, 21/09/2009

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Marcelo Min
VIDA NOVA
Militares brasileiros patrulham uma rua de Cité Soleil, em Porto Príncipe. No começo, eles só entravam ali em veículos blindados

As ruas de Porto Príncipe, a capital do Haiti, são apinhadas de gente. Um terço dos 9 milhões de haitianos vive na cidade de traçado colonial, com ruas estreitas e esburacadas, espremida entre o mar e uma cadeia de montanhas quase totalmente desmatadas. No meio da multidão, destacam-se capacetes azuis, sinais da presença de soldados da Força de Paz da Organização das Nações Unidas (ONU). Sob um sol abrasador, capaz de manter a temperatura perto dos 40 graus célsius o ano inteiro, soldados armados e vestidos com um equipamento de 30 quilos patrulham as ruas a pé, como policiais. A presença deles seria uma anomalia na maioria dos países. Mas no Haiti é um sinal de que a vida começa a voltar ao normal.

Os brasileiros formam o maior contingente de capacetes azuis no Haiti. Em 2004, o Brasil assumiu o comando militar da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), o país mais pobre do Hemisfério Ocidental e um dos mais pobres do mundo. A intenção inicial do Itamaraty era firmar o papel do Brasil como potência regional e demonstrar capacidade para pleitear uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU no futuro. Desde então, a cada seis meses, cerca de 1.200 militares do Exército e da Marinha chegam ao país para uma temporada de serviço. Os brasileiros são a maioria entre os cerca de 7.100 militares de 17 nações que compõem a missão.

Agora, após cinco anos, a ONU considera que a situação no Haiti se estabilizou. “A fase da pacificação do Haiti acabou”, diz Luiz Carlos da Costa, vice-representante especial do secretário-geral da ONU no Haiti. “As pessoas podem andar em áreas onde antes só iam com escolta e coletes à prova de balas.” O que, no início, parecia ser um atoleiro, no qual o Brasil havia caído, é hoje um sucesso reconhecido. No dia 9, o ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton, emissário especial da ONU para a reconstrução do Haiti, elogiou o trabalho do Brasil em um discurso na reunião do Conselho de Segurança.

Observadores independentes e a ONU atribuem a maior parte do sucesso da missão à atuação das Forças Armadas brasileiras. Richard Gowan, pesquisador do Centro para Cooperação Internacional da Universidade de Nova York, considera a operação de paz no Haiti uma das mais bem-sucedidas entre as 17 que a ONU mantém no mundo. Especialista em operações de paz, Gowan já acompanhou o trabalho dos militares brasileiros no Haiti. “Todos reconhecem que os brasileiros assumiram os maiores riscos e tiveram sucesso”, afirma. Diretor da ONU para a unidade de Operações de Paz para Europa e América Latina, David Harland faz uma avaliação semelhante. “O Haiti mudou de uma fase de instabilidade radical para uma situação estável – em grande medida graças ao trabalho dos brasileiros”, diz.

Essa mudança, na prática, foi observada por ÉPOCA em Porto Príncipe. Os soldados patrulham a pé até as partes mais violentas e miseráveis – pobreza no Haiti é pouco; o que existe é miséria –, como os bairros de Cité Soleil e Bel Air. Eles conversam com moradores e se esgueiram por becos durante a noite. No dia a dia, os soldados agora usam armas com balas de borracha e bombas de efeito moral.

Quando os primeiros militares brasileiros chegaram a Porto Príncipe, esse quadro parecia improvável. O Haiti estava mergulhado no caos, após a queda do presidente Jean-Bertrand Aristide. O vácuo no poder fez com que gangues de criminosos e traficantes tomassem o controle de Cité Soleil e Bel Air – bairros com cerca de meio milhão de habitantes. Políticos aproveitavam a confusão para insuflar manifestações. Os soldados circulavam com Urutus para superar montanhas de lixo de mais de 1 metro de altura e remover carcaças de carros das ruas. “As lojas eram atacadas pelas gangues”, diz o general Floriano Peixoto, comandante militar da Força de Paz. “Até o comércio informal era limitado.” A Polícia Nacional do Haiti era acusada de permitir chacinas. Os cadáveres apodreciam sob o sol.

Os primeiros dois anos da operação brasileira no Haiti foram complicados. Pressionado por políticos, o presidente René Préval, eleito após a queda de Aristide, defendia a negociação com as gangues e resistia aos pedidos da ONU de um ataque frontal a elas. Mas, em novembro de 2006, a ONU arrancou de Préval um compromisso de combate às gangues. Até o início do ano passado, “o pau cantou”, como dizem os militares. De acordo com a ONU, mais de 2 mil pessoas foram presas. Não há contagem de mortos.

De acordo com Richard Gowan e David Harland, da ONU, o segredo do sucesso brasileiro tem sido uma estratégica combinação de tiros com caridade. “As forças brasileiras são respeitadas e admiradas porque atiram quando têm de atirar, mas se envolvem em projetos de reconstrução que ajudam a população a melhorar de vida”, afirma Gowan. Os militares brasileiros se diferenciam de outras tropas por participar de operações de distribuição de comida, leite e água, atividades de recreação para crianças e projetos de obras de reconstrução e limpeza que dão empregos em Porto Príncipe.

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NA RUA
O capitão do Exército Marcelo Domingues conversa com crianças em Cité Soleil (acima). Militares fazem patrulha noturna (abaixo). Os soldados brasileiros se aproximaram da população. Assim, conseguiram pacificar áreas violentas

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SEM LUZ
Militares brasileiros patrulham em um veículo blindado. Os Urutus só são usados em regiões mais violentas e durante a noite

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“Embora esteja sob controle, a situação do Haiti é frágil”
FLORIANO PEIXOTO, general do Exército e comandante das forças militares da missão de paz da ONU no Haiti
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“A fase de pacificação do Haiti acabou”
LUIZ CARLOS DA COSTA, vice-representante especial do secretário-geral da ONU no Haiti

Distribuir comida no Haiti é uma operação de guerra. As ONGs locais selecionam as famílias mais necessitadas e, no dia marcado, o Exército faz as doações. Grandes filas se formam. A gritaria e as brigas são constantes. Sem segurança, poderiam acabar com mortos e feridos. Só as mulheres recebem alimentos – uma forma de garantir que os filhos terão comida. Enquanto a comida é entregue, em locais como quadras de esportes, os soldados promovem brincadeiras para as crianças. Por falta de espaço, muitas ficam de fora e acompanham, hipnotizadas, a distribuição. Outros soldados são espalhados por uma vasta área ao redor, para garantir que as mulheres não sejam roubadas quando saírem com os alimentos.

Os homens reclamam por não poder pegar a comida. Na cultura haitiana, eles têm preferência para comer. O sistema de privilégios para as crianças rompe com essa lógica. Mas não há afrontas aos soldados brasileiros. Em outro tipo de ação social, os militares criam frentes de trabalho para remover o lixo das ruas. Os selecionados ganham uma cesta básica após uma semana de trabalho em meio período. “Os brasileiros entenderam que o Haiti nunca terá paz sem apoio à comunidade”, afirma Harland. “É um modelo de como as missões de paz deveriam trabalhar.”

A estratégia aproximou os militares brasileiros da população. “Tropas de outros países passavam aqui só atirando, nem desciam do blindado”, diz um oficial do Exército. “Nós mostramos a cara.” A proximidade dá resultados práticos. Em uma das patrulhas que ÉPOCA acompanhou em Porto Príncipe, uma mulher se aproximou e pediu para conversar com o comandante da tropa. Com a ajuda do intérprete, ela falou sobre a localização de um bandido procurado pela polícia. Esse tipo de contato com os locais permitiu aos brasileiros construir uma rede de informantes. Na principal base militar brasileira em Porto Príncipe, três salas isoladas são dos militares da área de inteligência. Entre julho e agosto, três grandes líderes de gangues foram presos em operações brasileiras. Um deles era procurado por 50 mortes. “Num lugar populoso e complexo como Porto Príncipe, a inteligência é essencial para o sucesso da operação”, diz Gowan.

A vida dos militares brasileiros nas ruas de Porto Príncipe é uma prova de resistência. Os soldados vestem farda de mangas compridas, joelheiras, cotoveleiras, o pesado capacete azul com a marca UN e o Tudão. Esse é o nome dado a um conjunto formado por colete antibalístico de cerca de 8 quilos, recheado com arma, telefone, rádio, balas de borracha, bombas de efeito moral, spray de pimenta e outros acessórios. Completo, o conjunto chega aos 30 quilos. Todos usam óculos escuros e um lenço na cabeça para absorver o suor. Se quem veste camiseta sofre, um militar passa por uma verdadeira tortura. Um soldado no Haiti perde cerca de 3 quilos por dia. “A camiseta fica dura por causa do sal do suor”, diz o soldado André Salarini, há dois meses no Haiti.

O país onde estão os militares brasileiros ocupa um terço da ilha Hispaniola, no Caribe, e tem problemas gravíssimos. O nível de vida é comparável ao de países da África – de onde os ascendentes da maioria da população vieram como escravos entre os séculos XVI e XIX. Cerca de 80% dos haitianos são miseráveis. Metade deles não sabe ler e cerca de 60% dos que têm idade para trabalhar estão desempregados. Cada mulher tem, em média, 4,8 filhos. Em cada 1.000 crianças nascidas, 73 morrem antes de completar 1 ano e 75% das sobreviventes não são vacinadas.

O Haiti tem governo, mas não tem Estado. O país não tem ensino ou saúde públicos: 90% das escolas são particulares, e as mensalidades consomem o equivalente a 40% da renda das famílias menos pobres. Os hospitais são particulares, o que faz com que a maioria dos haitianos não tenha acesso a eles. Durante uma patrulha pelo bairro de Bel Air, um carro do Exército brasileiro socorreu uma mulher desnutrida, que estava desmaiada na calçada. Ela foi levada ao hospital. Por sorte, os médicos não estavam em greve.

Em Porto Príncipe, a maior cidade do país, praticamente não há transporte público. A população se desloca em tap taps, caminhonetes com pinturas características, que se transformam em vans de lotação. O trânsito é caótico. Até 2004, havia apenas um semáforo na cidade. Algumas vezes, os soldados têm de descer e disciplinar o tráfego nos cruzamentos. Um deslocamento de 10 quilômetros pode durar uma hora, sob sol escaldante. Grande parte de Porto Príncipe fica sem luz durante a noite. Nas patrulhas noturnas, os militares usam os Urutus, veículos blindados, para ir a essas áreas. É possível andar quilômetros em áreas totalmente escuras. “Mas, como muitos moradores dormem nas ruas, não usamos os blindados em todos os lugares”, diz o tenente Filipe Paiotti, que comandou uma patrulha acompanhada por ÉPOCA na região portuária de Waff. A pé, os militares têm de tomar cuidado para não pisar em pessoas que dormem sobre panos.

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MISÉRIA
Um menino atravessa córrego cheio de lixo (acima). Mulher expõe biscoitos feitos de barro ao sol (abaixo). Em Cité Soleil, as crianças não têm brinquedos e biscoitos de barro servem como alimento

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O conceito de pobreza muda quando se vê um local como Cité Soleil. Com cerca de 300 mil habitantes, Cité Soleil foi formada há décadas por migrantes que vinham do campo. O bairro lembra uma favela brasileira, mas é pior. Nas favelas do Brasil, muitos moradores fazem ligações clandestinas para usar água e energia elétrica sem pagar. Em Cité Soleil não há o que roubar. A energia elétrica só existe para quem paga por geradores. A água é trazida de longe, em baldes. O lixo está por toda parte: no chão ou entupindo os córregos. As crianças correm nas ruas, mas é raro ver alguma delas com um brinquedo. Durante oito dias, a reportagem de ÉPOCA não viu nenhuma. “Estou aqui há dois meses e ainda não vi nem bola com eles”, diz o capitão Marcelo Domingues, comandante da base militar brasileira mais próxima a Cité Soleil.

Stehelne Tirrer, de 25 anos, vive em Cité Soleil. Mãe solteira de três filhos, ela não trabalha. Em um dia no final de agosto, ela estava na fila para receber um pacote de leite em pó do Exército brasileiro. “Às vezes eu como todos os dias”, diz. E quando não há o que comer? “Mando meus filhos ficarem deitados em casa.” A falta de comida é responsável pela criação de uma iguaria típica do Haiti, uma espécie de biscoito de barro. A uma temperatura de quase 40 graus célsius, Nadia Guerrier, de 35 anos, seis filhos, mistura água e terra sujas com um pacote de sal grosso e manteiga em uma vasilha. A mistura é transformada em discos, colocados para secar. Cada um é vendido em uma feira por 25 gourdes (a moeda local), equivalentes a pouco mais de US$ 0,50. “Estou vivendo assim”, diz Nadia. Um barraco de placas de zinco é sua casa. As casas de tijolos do bairro são furadas por tiros. As que não têm teto são usadas como banheiro.

Nascido da utopia de escravos que se libertaram dos colonizadores franceses em 1804 e quiseram construir uma nação, o Haiti se transformou em uma tragédia ao estilo africano. O mais conhecido governante haitiano é o ditador François Duvalier, o Papa Doc, que permaneceu 14 anos no poder (1957-1971). Papa Doc mantinha uma espécie de milícia pessoal, os tontons macoutes. Como seus colegas africanos, Papa Doc se notabilizou pela ostentação do luxo pessoal em convívio com a miséria absoluta de seus “súditos”. O presidente Jean-Bertrand Aristide, que fez oposição à dinastia Duvalier e deixou o poder em 2004, vivia em uma mansão com um terreno amplo e cheio de árvores. Em frente a sua casa, mandou construir uma praça privada, com árvores e uma fonte. Fez isso num país onde não existem árvores e falta água. Aristide é parte da galeria de governantes que perpetuaram a corrupção e quebraram o Haiti.

O Haiti é um cliente antigo de intervenções internacionais. A atual missão de paz é a sétima em 20 anos. Essa rotina criou peculiaridades. Os políticos haitianos são craques em enrolar negociadores da ONU. Eles nunca dizem “não”, mas também não assumem compromissos. A população é apática em relação à missão de paz. “Os haitianos apenas nos toleram”, diz Luiz Carlos da Costa, da ONU. “É o primeiro país do mundo em que eu sinto indiferença da parte da população com a ONU.”

Carioca de nascimento, Costa é funcionário da ONU há 38 anos, cuida há 17 de missões de paz e está há três anos no Haiti. Antes, esteve em missões de paz no Kosovo (ex-Iugoslávia) e na Libéria, África Ocidental. É uma das pouquíssimas pessoas que se podem encontrar em Porto Príncipe vestidas com terno, gravata e uma camisa com abotoaduras nos punhos. Costa teve dificuldades para explicar a uma das filhas a decisão de trocar o belo escritório na sede da ONU, em Nova York, pelo atual, montado em um hotel falido – onde há uma piscina vazia, com peixinhos pintados nas paredes e estátuas de tartarugas no fundo –, localizado na área considerada nobre de Porto Príncipe. “Eu disse a minha filha que a ONU tinha a oportunidade de contribuir para a reconstrução do Haiti. E eu queria fazer parte”, afirma Costa.

A missão da qual Costa faz parte é ajudar o país a aprender a andar sozinho. “Deveria ser mais fácil solucionar os problemas de um país pequeno como o Haiti”, diz Costa. “Mas, além da miséria, há uma cultura política de uma elite que não possibilitou o desenvolvimento.” Cerca de 60% do PIB do Haiti vem de doações. O país recebe mais ajuda financeira externa que investimentos. É uma equação perversa, que muitos países da África superaram recentemente. A ajuda alivia, mas são os investimentos que ativam a economia. Um dos maiores obstáculos aos investimentos no Haiti é a falta de infraestrutura. Não há garantia de energia – a maioria dos haitianos corta árvores e faz carvão para cozinhar. As estradas são péssimas. Recentemente, um caminhão do Exército demorou três dias para percorrer 90 quilômetros entre duas cidades. Um contêiner que sai da China chega aos Estados Unidos com um preço mais baixo que outro que saia do Haiti – que fica a menos de duas horas de voo de Miami. Mesmo assim, a ONU tenta atrair investidores para o Haiti. Em outubro, o ex-presidente americano Bill Clinton levará um grupo de investidores ao país.

A elite haitiana mora nos Estados Unidos, na França e no Canadá. Poderia colaborar, mas não se interessa. Em Porto Príncipe, os poucos ricos vivem em bairros como Petión-ville, encravado nas montanhas. “Os haitianos vivem de remessas de parentes que moram no exterior”, afirma a canadense Amélie Gauthier, pesquisadora da Fundação para Relações Internacionais e o Diálogo Exterior. O Haiti recebe cerca de US$ 1,2 bilhão por ano em remessas de pessoas físicas. Por todas as esquinas de Porto Príncipe há lojas da Western Union, rede especializada em remessas.

A missão de paz no Haiti está em um momento de transição. O país foi pacificado, mas a vida dos haitianos melhorou pouco. Em 2011, haverá uma revisão dos trabalhos da ONU. É quase certo que os contingentes militares comecem a ser reduzidos. “Embora a segurança esteja sob controle, a situação do Haiti é frágil”, diz o general Floriano Peixoto, comandante militar da Força de Paz.

Para o Brasil, a saída do Haiti pode ser o fim de um desafio, mas será o início de outros maiores. Segundo Richard Gowan, há “um desejo político muito forte” na ONU em ver o Brasil em algumas das outras 16 missões de paz. Os desafios no Haiti são grandes, mas os desafios na África são maiores. No Congo, há diversos grupos rebeldes espalhados por um grande território. Na Somália, há sinais de presença da organização terrorista Al Qaeda. Os países europeus se recusam a enviar tropas para esses lugares. “Eu acho que, tendo um sucesso tão grande no Haiti, certamente a presença do Brasil seria bem-vinda em outras missões”, afirma David Harland, da ONU. “Se o Brasil quer ser uma potência global, tem de agir como uma”, diz Richard Gowan. A China e a Índia, concorrentes do Brasil no cenário geopolítico, já fazem isso. Mas é uma decisão difícil. Para crescer, o Brasil terá de colocar em maior risco a vida de seus militares. É um preço que o país terá de decidir se está disposto a pagar.

Revista Época

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