Enfim, empresário

Enfim, empresário

Depois de anos na informalidade, 424 mil brasileiros viram pessoa jurídica e esperam um futuro melhor

Por Adriana Fonseca
Fotos: Marcelo Min

Eles têm as mãos marcadas. De tecer móveis de bambu, moldar penteados, transformar restos de papel em objetos, colocar festas em pé, assar bolos, ensacar ervas medicinais, esquentar cera. Linduina, Valdeci, Giana, Tânia, Sérgio, Edmilson e Ricardo. Sete brasileiros que lutam para ganhar a vida por conta própria e que, de um ano para cá, realizaram um sonho: formalizar o negócio. Fazem parte de um grupo de 424 mil pessoas que aderiram ao Microempreendedor Individual (MEI), figura jurídica instituída em julho de 2009 para regularizar empresas com faturamento de até R$ 36 mil por ano. Bem-vindos.

LINDUINA ALVES, 43 ANOS, FABRICA E VENDE MÓVEIS DE BAMBU EM CAIEIRAS, GRANDE SÃO PAULO
“Eu e meu marido Almiro morávamos em Caseara, uma cidade pequena do Paraná. Eu era cozinheira e ele colhia cana. Que trabalho sofrido ele tinha… Aquilo não é vida. Em uma das entressafras, o Almiro decidiu que iria parar. Depois de 12 dias em um curso de móveis com bambu, ele chegou em casa e me disse que iria usar o dinheiro da demissão para comprar comida para três meses e matéria-prima para começar o negócio. Fiquei com medo. Tínhamos dois filhos pequenos. E se não desse certo? Mas eu apoiei a decisão.

A primeira cadeira não ficou boa. Pensei: que burrada. Só que eu tinha que continuar acreditando. Quando conseguimos fazer uma cadeira direito, foi muita emoção. Como a gente não tinha carro, o Almiro levava os móveis nas costas para vender. Tem marcas nos ombros até hoje por causa disso. No primeiro dia, saiu com duas peças. Vendeu tudo e ainda voltou com três encomendas. Depois, fomos para São Paulo. Durante 14 anos, eram 40 dias produzindo os móveis no Paraná e o resto do tempo em São Paulo. Um ano atrás, tivemos muito problema com cheque sem fundos e faltou dinheiro. Decidimos recomeçar a vida em Caieiras.

A gente faz os móveis na semana e, de sexta a domingo, coloca tudo em cima do caminhão para vender em um ponto próximo aos condomínios de casas. Ganhamos R$ 600 por semana. Não queremos mais aceitar cheque, só que muitos clientes pedem para parcelar as compras. Como não dá para ter máquina de cartão de crédito como pessoa física, abrimos a empresa pelo Microempreendedor Individual.”

VALDECI JOSÉ PEREIRA, 33 ANOS, É DONO DE UM SALÃO DE CABELEIREIRO EM ITAQUERA, SÃO PAULO
“Quando eu era adolescente, já gostava de cortar cabelo. Não sei muito bem como aprendi, mas fazia sucesso com parentes e amigos. Decidi me matricular em um curso para me aperfeiçoar e comecei a trabalhar como cabeleireiro. Depois de dois anos, abri o meu próprio salão. No começo eu fazia tudo sozinho, mas logo a clientela aumentou e precisei de um empregado. Foi um problemão: ele me roubava e demorei para perceber. Quando desconfiei, comecei a anotar todos os serviços que a gente fazia em um caderninho e consegui comprovar que ele estava pegando dinheiro a mais. Desde então, tenho um controle certinho de tudo o que entra e sai. São perto de 100 clientes por semana, o que dá uma renda de R$ 3 mil por mês. Há dois anos, contratei um outro funcionário, que é ótimo. Quando eu era empregado, o salão ficava com 55% do valor dos cortes que eu fazia. Nunca achei aquilo justo, mas era a prática em todo o mercado. Só que, quando abri o meu, decidi que seria diferente. Eu fico com 30% do serviço feito pelo funcionário e tem dado certo. Ele é muito dedicado e atencioso com os clientes. Como Microempreendedor Individual, vou poder registrá-lo. E também pegar empréstimo. Na época em que o prefeito Kassab implementou a Lei Cidade Limpa, tive que mudar a fachada do salão. Fui atrás de crédito nos bancos e não consegui nada. Precisei pedir ajuda para a minha mulher, que é registrada. Agora, vai ser tudo diferente. Mandei até emoldurar o registro do meu negócio. Antes, eu tinha apenas uma porta aberta. Agora, tenho uma empresa.”
GIANA CARLA, 41 ANOS, FAZ ARTESANATO COM TECIDO E PAPEL RECICLADO EM SANTO AMARO, SÃO PAULO
“Me formei em educação física e dei aula na rede pública por 15 anos. Em paralelo, como sempre gostei de dobraduras e trabalhos manuais, comprava umas revistas e fui aprendendo a fazer artesanato. Minhas vizinhas adoravam e eu vendia para elas o que fazia. Depois de alguns cursos, me especializei em revestir material de escritório com tecido e papel que eu mesma reciclo. Larguei o magistério. Faço agendas, blocos, cadernos e até caixas. Eu e mais cinco amigas artesãs vendemos para conhecidos e em feiras de clubes e associações. Isso me dá uns R$ 500 por mês, o que complementa meu salário como professora de oficinas de artesanato. Nossa ideia é abrir um ateliê. Por isso nos cadastramos no Microempreendedor Individual. Precisamos de financiamento para reformar a casa. Já estão avaliando minha solicitação no Banco do Povo e espero conseguir inaugurar meu espaço até o final do ano.”
TÂNIA MUJICA, 28 ANOS, DO TATUAPÉ, EM SÃO PAULO, ORGANIZA FESTAS

“Nasci no Peru. Além de dar aulas de turismo e publicidade, minha formação, eu já trabalhava como estátua viva. Há cinco anos vim para o Brasil, atrás de um amor, e comecei a fazer o mesmo tipo de performance no centro de São Paulo. As pessoas viam e me chamavam para atuar em eventos. Eu ficava observando tudo e logo percebi que também tinha capacidade de organizar festas como aquelas. Fiz cursos a distância na área e há um ano venho realizando eventos, principalmente festas de debutantes. Sempre chamo estátuas vivas para participar e eu mesma crio o roteiro do que elas devem fazer durante a festa. Costumo também contratar grupos de dança e de teatro. Agora, com a empresa aberta pelo Microempreendedor Individual, vou poder emitir contratos como pessoa jurídica e dar nota fiscal. Isso deixa o negócio muito mais sério. Poderei até cobrar mais e aumentar minha renda, que hoje é de R$ 3 mil por mês.”
SÉRGIO LUIZ BARBOSA, 41 ANOS, VENDE BOLOS NA RUA EM PERUS, SÃO PAULO
Há cinco anos, fiquei desempregado. Eu era um faz-tudo, e, de repente, percebi que o mercado não tinha mais espaço para gente com o meu perfil. O dinheiro estava acabando e eu não arrumava nada. Como a minha mulher sempre cozinhou bem, tivemos a ideia de fazer bolos para vender na rua. Montei uma barraquinha no centro de Perus (SP), que fez muito sucesso. Dois anos depois consegui comprar um carrinho, para deixar os bolos mais apresentáveis. Hoje temos também uma confeitaria na parte de baixo de casa. Todo dia eu acordo às 7 horas da manhã para assar os bolos. Eu, minha mulher e minha nora. Às duas da tarde vou para a rua vender e elas ficam na confeitaria, atendendo as encomendas. Normalmente vendemos uns 90 pedaços por dia, a R$ 2 cada um. Quero produzir salgados, mas para isso preciso comprar uma máquina. Como Microempreendedor Individual, fica mais fácil conseguir empréstimo. Outra coisa boa é que agora consigo pagar o INSS. Poderei me aposentar um dia.”
RICARDO FERNANDO DE CARVALHO, 49 ANOS, FABRICA CERAS DEPILATÓRIAS EM CIDADE ADEMAR, SÃO PAULO
“A vida inteira trabalhei como operador de máquinas. Agora estou perto de me aposentar e quero ter meu próprio negócio. Como minha mulher e minha cunhada são depiladoras, elas me incentivaram a produzir cera e vendê-la para salões de beleza. Achei que podia ser uma boa ideia. Hoje, fabrico ceras de mel, chocolate, maracujá e algas. Vendo cerca de 80 quilos por mês, a R$ 15 o quilo, e forneço para sete salões, que são clientes fixos. Quando soube que dava para abrir uma empresa pelo Microempreendedor Individual, sem gastar nada e pagando pouco imposto, fui atrás. Já perdi venda porque não tinha como dar nota fiscal.”
EDMILSON DUARTE, 45 ANOS, TEM DOIS QUIOSQUES DE CHÁS E ERVAS MEDICINAIS EM CAIEIRAS, GRANDE SÃO PAULO
“Desde criança, ainda na Paraíba, eu ia com meus avós colher plantas medicinais. Boa parte do conhecimento que tenho hoje, obtive com eles. Vim para São Paulo com 18 anos, sozinho e sem dinheiro. Cheguei a dormir na rua e passei fome. Minha vida começou a mudar quando uma família me acolheu. Me deram abrigo e comida e fui trabalhar como auxiliar de mecânico. Comecei em uma oficina, depois mudei para outra e assim fui levando. Há oito anos, fiquei desempregado. Para me virar, passei a vender chás e ervas medicinais em um carrinho no centro de Caieiras. Até conseguir a licença para trabalhar, fui muito perseguido. Toda vez que aparecia fiscal, eu tinha de sair correndo ou então perdia toda a mercadoria. Só me deram a licença há dois anos e, até hoje, estou no mesmo ponto. Chego a vender até R$ 300 por dia. Agora, como Microempreendedor Individual, consigo pagar o INSS e daqui a alguns anos pretendo me aposentar. Mas não vou parar de trabalhar. Não dá para parar.”

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  1. Valdecir Carvalho - Fotografia

    Lindo Min… mto lindo! Putas fotos animais!

    Um dia eu chego lá… aprendo a produzir esses retratos animais!

    Abcs
    Valdecir

    Sep 06, 2010 @ 2:27 PM

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