janeiro 25, 2004

Mini Cine Tupy

Cinema para a periferia é a luta de Zagati

Uma colaboração muito especial da Adriana Bosco que me enviou seu texto sobre o Zagatti.

O mini-cine Tupi, a razão de estar aqui
Adriana Bosco, fev/2001

Vi na tevê a história de um homem, um catador de papéis,
que construiu com pedaços de lençol, cadeiras velhas achadas na
rua, recortes de revistas e um velho projetor, um pequeno cinema, o
mini-cine Tupi, na garagem de sua casa. Sua paixão pelo cinema
(ele dizia "a primeira vez que eu entrei em um cinema eu estava no colo
da minha irmã. Vi aquela tela branca grande e aquela luz que saia e
refletia nela e me encantei") rende, todos os domingos, uma sessão
gratuita para os moradores do bairro em que mora. Tem até sorteio de
brindes (ele dizia: "nós não temos dinheiro, mas vamos na loja de R$1,99
e compramos assim umas três coisinhas, distribuímos as senhas e
sorteamos no fim da sessão"). Lá não tem Cinemark. O arquivo de
longas não é farto, mas soma quinze filmes, que são rebobinados numa
enroladora inventada e construída pelo homem com LP´s antigos e outros
pedaços de lixo. Achei bonito aquele homem sonhando apesar da
condição. Depois percebi que ele não sonhava apesar da condição... ele
agia DE DENTRO da condição, escolhendo o próprio sonho, que faz sonhar
outros homens grandes e pequenos em volta dele. Me lembrou o
mais amargo Charles Bukowsky, que em um poema dizia qualquer coisa como:
se você está esperando as condições ideais para criar, como luz e tempo
e ar e espaço, você não vai criar nunca, por que quando alguém precisa
criar, cria com cinco filhos chorando, de madrugada, depois do trabalho
na fábrica, mas cria. E ele diz também que luz e tempo e ar e espaço só
prolongam a nossa vida para que a gente invente novas desculpas para não
se mexer. Como este país em que vivemos, que espera eternamente
qualquer coisa que não irá acontecer, o dinheiro que não tem, a vida que
não leva, a violência que um dia há de ser controlada (por quem, meu
Deus?). Por que talvez estejamos errados ao acreditar numa
essência que não existe, numa natureza humana, dependente de certas
condições materiais e espirituais que nunca virão. Nós todos temos
desculpas inventadas, e nossa ação está condicionada a coisas que um dia
acontecerão, ou a alguma recompensa ou punição que esperamos por cada
passo dado. A recompensa não vêm, e nós todos, de todas as
classes, de todas as ideologias, aqui parados. A recompensa não
virá. Pelo menos não esta recompensa que a gente espera, este céu na
terra concebido num mundo de descolamento e reificação e crueldade.
A única recompensa possível pelas escolhas que fazemos sempre
(mesmo quando achamos que não estamos a escolher...) e que nos impele à
ação (mesmo quando achamos que não estamos a agir, pois deixar de fazer
também é movimento em direção a outra coisa) é a liberdade que consiste
na liberdade minha em compasso com a liberdade desses outros que
compartilham o sonho (tantas vezes visto como pesadelo) da condição
humana. A única recompensa é a esperança de uma moral construída
na solitária perspectiva da total responsabilidade que um homem tem por
cada caminho que toma em cada tempo de sua vida. A total
responsabilidade de cada homem, desprovida de culpa e desculpa,
desprovida de bengalas em que se apoiar, desprovida de determinismos.
Por que não é uma questão de haver fatos, condições econômicas, sociais,
políticas, psíquicas IDEAIS. A gente precisa ir com o que tem. Por que é
de dentro da fornalha que podemos agir, e não apesar do inferno, ou
contra o inferno, à espera das condições ideais da revolução ou coisa
que o valha. Me cansei de projetos tão grandes que não se
concretizam, e há sempre alguém para dizer "mas também, nessas
condições...". Nossos projetos, individuais, mas também coletivos, a
medida que a responsabilidade e a liberdade de cada um de nós está
atrelada à do outro, tem que ser vivos, dentro deste terrível e tão
lindo buraco de termos que arcar, sozinhos, com todas as nossas escolhas
e com a nossa existência (que não é precedida de qualquer essência),
nesse mesmo país tão quente que precisa tanto tanto escapar da barbárie,
e que, tão sem esperança, se recosta no barranco, tranca as portas e
bebe pra esquecer a dor da vida. Aqui, neste lugar no tempo e no
espaço, nos resta abandonar qualquer espera e condição para as
tentativas, por que se sequer procuramos por elas, o vazio é tão grande
que só o eco é suficiente para matar a gente de medo. Nos resta
agir dentro de uma moral de responsabilidade e liberdade. E quem sabe
construir mais uns tantos mini-cines Tupi em tantas garagens de tantos
bairros, para nos lembrar a toda hora o porque de estarmos aqui,
justamente aqui.



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