outubro 15, 2004

Três lados da Justiça

Hoje pela manhã fui ao Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, fotografar um encontro entre o Presidente do TJSP, Luiz Elias Tâmbara e o relator da ONU para o Poder Judiciário, Leandro Despouy. Enquanto esperava a reunião se abrir para as fotos, no meio daquele mármore todo do palácio da João Mendes, e maravilhado com a arquitetura, entrei na Câmara de Julgamento, vazio, sendo encerado e conheci a Adriana.

digital, Marcelo Min, 20041015, Justiça
Adriana Silva Santos, 27, 2 filhos, um de 6 e outro de 10, ganha R$347,00 líquidos por mês trabalhando para uma empresa tercerizada do Tribunal de Justiça, seu marido é arquivista da mesma empresa e moram em Campo Limpo, no Jardim Maria Sampaio, num prédio do CDHU pagando aluguel de R$66,00. Para Adriana, infelizmente o "Brasil não é um país justo. É sim um país racista e muito! O racismo é camuflado. É incrível como as pessoas fecham os olhos. Cada um está no seu nível. São vários níveis, e ninguém quer ajudar o próximo..."

Bem, fiquei pensando nas pessoas da ocupação em Guaianazes, que ou estão desempregadas ou ganham até 300 reais por mês e que têm mais de dois filhos, às vezes 6, às vezes 11 filhos, e que pagam aluguel de 200 reais e vão se endividando, até serem despejados e obrigados a pararem debaixo de um viaduto da periferia. E fico pensando se é justo ou não invadirem um terreno abandonado, no caso uma pedreira e antigo lixão, mesmo que este terreno seja cercado por diversos prédios em construção do CDHU e do PAR, e que para estas pessoas, mais de 800 famílias, muito delas de migrantes nordestinos, os projetos de habitação populares governamentais ainda é um sonho distante...

digital, Marcelo Min, 20041015, Justiça
O presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, o desembargador Luiz Elias Tâmbara, o todo poderoso e simpático representante da Justiça neste Estado tão injusto e rico que é São Paulo.

digital, Marcelo Min, 20041015, Justiça
Fui dar um rolê pela Praça da Sé, sob chuva, e lá na Catedral, vi o Oscar Camargo Junior, de terno, gravata e capa de chuva subindo a escadaria. Oscar é corintiano, advogado, solteiro, é paulistano da Aclimação. "Aqui não se aceitam as pessoas de outras origens. Há muito preconceito. Trabalhei alguns anos num banco e meu chefe não aceitava o fato de eu trabalhar e estudar. Ele não tinha curso superior e quando entrei na faculdade de direito foi o meu fim no emprego. Ele me queimou e fui despedido. Mas depois entrei com uma ação trabalhista e a justiça foi feita. O preconceito está em toda a parte, no metrô, nos ônibus, na hora de procurar emprego, na falta de espaço, de aceitação e na concorrência para qualquer coisa. Tem gente que tem interesse nas diferenças de classes. Isso sempre existiu. É impossível combater isso. Só com instrução talvez, com reeducação..."



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