Remédio para estatísticos
Marcos Sá Corrêa, www.nominimo.com.br
17.10.2004 | Saiu a nova safra da pobreza nacional. Os brasileiros que não ganham para comer são agora 47,4 milhões. Atenção para a vírgula. É esse “vírgula quatro” que dá ao número o certificado de origem. Trata-se de mais uma conta da Fundação Getúlio Vargas, onde o economista Marcelo Néri retrata os pobres em cifras tão astronômicas que eles parecem abstratos, como se fossem filhos de um cruzamento da estatística com o computador.
A vantagem desses cálculos é que cada um pode fazer como eles o que quiser. Nada, inclusive. Há um documentário da campanha eleitoral de 2002 em que o presidente Lula aparece, entre comícios e debates, falando sozinho diante de um espelho. De repente, ele cita no monólogo os cinqüenta milhões de famintos oficiais. E confessa a si mesmo que acha o número francamente inverossímil. Semanas depois, eleito, lançaria o Fome Zero, invocando os tais cinqüenta milhões, talvez só porque o país já se acostumou com eles.
Mas nem tudo está perdido. Saiu “O Povo do Abismo”, uma reportagem feita em 1902 pelo escritor americano Jack London, que para isso pulou de cabeça na miséria abjeta do East Side londrino, num tempo em que a Inglaterra era a melhor vitrine internacional da desigualdade ostentatória. London pulou nesse mundo com o asco e a intimidade de quem conhecia a penúria de berço. Ela foi a matriz tanto do escritor famoso como do socialista visceral, que comprou por dez xelins uma camisa de foguista, uma calça de estivador e um par de velhos borzeguins numa loja de roupas usadas, e desceu ao meio dos pobres como se fosse um deles - ou fosse, pelo menos, um “vagabundo ianque”.
O livro, que acabada de engordar a Coleção do Pensamento Radical da Fundação Perseu Abramo - trazendo de quebra uma introdução da professora de literatura norte-americana Maria Sílvia Betti que, sozinha, vale a encadernação - chegou bem na hora para mostrar o que está faltando ultimamente aos nossos pesquisadores da fome. É estômago. Ou seja: um instrumento que, em vez de recitar os déficits no consumo diário das 2.888 calorias recomendadas pela Organização Mundial de Saúde, ajudasse o país a descobrir, por exemplo, que “o trabalhador não é apenas mal-alimentado, mas porcamente alimentado”.
“Estive num açougue”, explica London, “observando uma horda de donas-de-casa revirarem as aparas de carne de vaca e de carneiro - aparas que são dadas para cachorros nos Estados Unidos. Não poria minha mão no fogo pela limpeza dos dedos daquelas mulheres, muito menos pela limpeza dos quartos em que vivem com suas famílias. Ainda assim revolviam, manuseavam e descartavam aquela confusão de pedaços na ansiedade de fazer valer seus escassos cobres. Fixei o olhar sobre um pedaço de carne particularmente repugnante e o acompanhei enquanto passava pelas garras de mais de 20 mulheres, até ser comprado por uma mulherzinha de aspecto tímido que foi praticamente obrigada a levá-lo pelo açougueiro”.
E esta é uma parte leve do relato. London dormiu em albergues de mendigos, encarou fila de sopões, fez a ronda completa das espeluncas londrinas, varou madrugadas zanzando ao relento sob a chuva e engoliu coisas que o levavam a pedir desculpas, pela afronta, às próprias entranhas. Mas tirou do que viu uma história em que os miseráveis têm nome, sexo, ofício, gengivas murchas, famílias inteiras ceifadas pela escarlatina e sobretudo um medo permanente da polícia, que não os deixava passar a noite em sacadas ou bancos de praça. Salvos da morte anônima pelo repórter há mais de um século, os lazarentos de Londres hoje parecem mais vivos e próximos do que os famintos brasileiros, reduzidos a assombrações estatísticas nas manchetes de jornal.
Que falta faz um Jack London no Rio de Janeiro, para freqüentar os bandejões de um real da dupla Garotinho como ele experimentou a mesa do café-da-manhã no Exército da Salvação de Blackfrairs Road. Era domingo de manhã. E a fila, grande. “Não nos aglomeraríamos com tanta determinação e desespero se estivessem distribuindo um milhão de dólares. Alguns já haviam retomado o sono quando o policial voltou e nos dispersamos, para voltar apenas quando a barra estivesse limpa. Às sete e meia a porta se abriu e o soldado do Exército da Salvação apareceu. ‘Não faz sentido bloquear a passagem desse jeito. Quem tiver senha pode vir agora, os outros só depois das nove’, disse”.
O resto iria aguardar mais uma hora e meia. Em pé. Lá fora. À porta de uma instituição de caridade. ‘Os homens com senha foram muito invejados. Tinham permissão de entrar, lavar-se, sentar e descansar até o café da manhã, enquanto tínhamos de esperar na rua. As senhas tinham sido distribuídas na noite anterior, ao longo do Embankment, e possuí-las não era questão de mérito, mas de sorte”. Há maldades no assistencialismo que de longe não aparecem. Mas London as enxergou cara a cara: “Obrigar homens que passaram a noite em claro a esperar em pé durante duas horas é tão cruel quanto desnecessário. Estávamos fracos, famintos e exaustos com a privação e a falta de sono e, contudo, estávamos lá, em pé, horas e horas, sem quê nem por quê”.
Num albergue de Whitehall, ele constatou também que a ralé tem razões que o assistencialismo desconhece: “Às oito da noite descemos até o porão, embaixo da enfermaria, onde nos trouxeram chá e sobras do hospital. As sobras vinham amontoadas sobre uma imensa travessa, numa desordem indescritível - pedaços de pão, nacos de gordura e de carne de porco, juntas chamuscadas, ossos, enfim, os restos que sobravam dos dedos e das bocas de doentes que sofriam de todo tipo de moléstia. Os homens mergulhavam as mãos naquela balbúrdia, cavando, manuseando, revirando, examinando, descartando e revolvendo tudo aquilo. Não era nada bonito. Porcos não fariam pior”.
Em compensação, foi ali que ele conheceu um mendigo que lhe disse para ficar esperto, porque dias antes encontrara costeleta de porco no lixo da enfermaria. “Era um pedaço de primeira, com uma quantidade infinita de carne, aí saí correndo pelo portão carregando aquilo nos braços e desci a rua para procurar alguém para dar aquilo”, contou-lhe Ginger. “Ah, almas caridosas, ah, filantropos, venham ao albergue noturno aprender uma lição com Ginger. No fundo do Abismo ele tivera uma atitude altruísta como raramente se vê do lado de fora do Abismo”, concluiu London.
Os números são raros no livro. E, além de raros, irrelevantes. Um escritor como ele não precisava de nada mais que palavras para provar que a miséria humana é feita de partes indivisíveis, aquelas que as estatísticas diluem até tornar vagamente inverossímeis. London cresceu na mais negra pindaíba. Formou-se à custa de trabalho infantil em turnos de até 20 horas diárias. Mas tinha um pendor para a aventura que o levou até a faiscar ouro no Alasca. E lia vorazmente. Aos vinte e poucos anos não tinha emprego fixo, diploma ou onde cair morto. Aos trinta, era escritor publicado e rico. Fez mais de 50 livros. Escrevia com a pressa furiosa de um proletário fadado a pagar dívidas com literatura, à medida que pela vida ia criando e perdendo fortunas.
Aos 40 anos estava morto. Ou pior: exaurido. Mas suas novelas ficaram, prolongando a tal ponto sua carreira póstuma como autor de best-sellers que, na década de 1990, seus livros sobre o Alasca inspiraram Christopher McCandless, um adolescente bem-nascido, a fugir de casa para morrer no inverno ártico, em busca da vida selvagem que nas histórias de London se confunde com a vida propriamente dita. Ele pode não ser bom conselheiro, como se vê. Mas no dia em que o governo tiver um programa para melhorar o apetite do brasileiro pelo Fome Zero, não custaria nada mandar alguém em Brasília dar uma olhada em “O Povo do Abismo”.