Ei finalmente enfrentei o eco todo da gravação e hei, hou, tá aqui a transcrição completa do meu bate-papo com o Egberto Nogueira! Ufa, depois de horas e horas, missão cumprida!
Egberto Nogueira fazendo a História em sua Ímã Fotogaleria, que em breve terá grandes novidades e mudanças.
Ei Egberto, repórter-fotográfico tem que engolir sapo mesmo?
Não tem jeito. O tempo todo a gente engole sapo. Pô, até como dono de galeria tô aqui engolindo sapo, meu... Sou o dono e o tempo todo tenho que engolir sapo...
E também tem que ganhar mal, abaixo da tabela da categoria de fotojornalista?
Ah isso já não existe, é tudo ficção! Quase ninguém respeita, poucas são as empresas. Tem a tabela institucional né? Os caras não pagam não...Pô, tem um fila, se você não for, a fila anda, número dois, número três, número quatro...
E sempre foi assim?
Nem sempre foi assim. Então no meu tempo, que não é tão longuinquo assim, não sou um cara tão velho, não pro jornalismo, comecei com vinte anos, ainda peguei um resto disso! Na década de 70 e de 80 o Brasil viveu um momento político muito definido, por causa da ditadura, da censura, então a grande massa de intelectuais, da classe média intelectualizada, jornalistas, eles não compactuavam com o autoritarismo. Eram contra. E isso dava uma certa coesão à classe. As pessoas se interessavam por sindicalismo, se interessavam por mobilização social, se interessavam por movimentos pela mudança, pelas causas sociais, contra a quebra das liberdades políticas, então isso acabava aglutinando a classe fotográfica e por consequência ela trabalhava com certas regras. Então, por exemplo, ninguém cobrava menos que o outro, sabe? Tudo bem, sempre tinha um f.d.p. mas era uma exceção. Não era a regra. Hoje a regra é o salve-se quem puder! E aí a exceção é o cara que diz, não, não cobro menos que aquele outro cara. E se vc fizer isso, vc é uma exceção à regra...Naquele tempo não, era o contrário. A regra era cobrar o valor do sindicato. Enfim, todo mundo cumpria isso daí... Tem outras coisas, também... Todo mundo era mais politizado, todo mundo era a fim de derrubar o governo, a ditadura, de se mobilizar. Existia um espírito coletivo, tanto é que o PT nasceu neste período, né, as greves em São Bernardo dos Campos em 78, 79. Foi aí que eu comecei a brotar, a sair da casca do ovo, assim. Pra você ter uma idéia comecei a militar politicamente aos 13 anos, 14 anos. Eu já era um puta comunistinha, andava de boina, isso moleque, ia pra favela, tal, fazia trabalho de base, colaborava com a igreja até, que era bastante politizada e tal...
E nesta época que vc começou os veteranos também eram assim?
Total! O charme de ser fotojornalista era ser um cara combativo, um cara aguerrido, né, um cara guerilheiro, não pra pegar em armas, mas o cara que ia pra pauta pra pegar aquela foto que, porra!, mostrava o bastidor do poder, o podre, a sacada irônica. Vc pega o fotojornalismo da decada de 70 e 80 , são fotos assim sarcásticas. Então, por exemplo, tem o Geisel numa foto com um militar atrás, e o fotógrafo buscou encaixar o quepe do militar na cabeça do presidente que tava vestido como civil, né, e foi capa da revista Veja. Então tinha esta leitura, o fotógrafo era um cara que conhecia o que estava falando e o jornais também publicavam.... Hoje em dia, por exemplo, uma greve na Paulista, uma passeata, não dá primeira página nunca, entendeu?
As empresas jornalísticas então mudaram?
Mudaram de foco, sabe. O jornal agora publica muito comportamento, viúvas que são casadas com homens mais jovens, sabe, estas bobagens, aumentou o número de lojas de beleza pra cachorros, sabe? Naquela época não se via muito isso. Os próprios donos das empresas jornalísticas eram pouco contra a falta de liberdade de imprensa. Então isso propiciava um clima de luta, né, o sindicato e a classe jornalística eram mais coesos. Então eles se defendiam melhor... mas também nunca foi uma grande categoria, não pelo menos desde que eu conheço... que eu acompanho...Não é exatamente uma categoria organizada, batalhadora...
Os caras que iam para o jornalismo eram caras que tinham um certo comprometimento com a sociedade, iam para o jornalismo como uma maneira de estar denunciando, de estar questionando a sociedade, e eu acho que sou a última geração disso até porque eu conheço o pessoal que veio depois né? E tem pouca gente de destaque, a moçada nova, por exemplo que tem um pique deste, tem o João Wainer. Que é a geração seguinte. Que eu me lembre assim tem um ou dois mais assim... Que tem um perfil mais mano, que tá ligado nas estórias, né? Porque hoje mudou né? A parada não é mais comunista. O cara é mais mano, tá mais ligado no movimento social de outra maneira, pela questão racial, pela questão da música, da exclusão social, da coisa da periferia, da cultura e da arte que vem da periferia que tem um pouco né da cultura popular e tal...na nossa época era também cultura popular, todos os fotógrafos viam nisso uma contracultura, uma coisa anti-imperialista, anti-americana, anti-colonialista, anti-dominação. As pessoas tinham muita consciência disso. Isso era geral, não só no jornalismo. No cinema, por exemplo, também. Então tem o cinema novo na decada de 70, até o comecinho da decada de 80. O cinema brasileiro tinha este espírito e tal. E hoje também está retornando, só que numa outra abordagem, de morro, de favela, de realidade, não é uma abordagem política exatamente, quer dizer, é também, mas com outros enfoques...
Mas não tá tudo perdido não... não é isso...só acho que é uma fase. Naquele tempo, para ser considerado um bom fotógrafo não bastava saber fazer foto. E hoje basta. O cara no jornal só faz retrato, só faz boneco, pros cadernos de imóvel, ou para as revistas de domingo dos jornais. É boneco sobre boneco, são bem feitos e tal, quer dizer, o cara para fazer aquilo lá, ele pode não saber nada de nada, entendeu? Não saber política, o que está acontecendo no país! Ninguém mais milita politicamente em nada, simplesmente porque o trabalho não exige.
E hoje são poucos os que se pautam, não é?
Pô, eu comecei na Agência Angular, e eu tinha obrigação de ler 5 ou 6 jornais por dia, de ouvir rádio pra caramba, de ver o Jornal Nacional, o Jornal da Globo, de ficar ligado....a gente se telefonava um pro outro pra ver o que estava acontecendo... A gente se sentia responsável pela notícia e ia lá, cobria e fazia a cobertura.... hoje em dia não!!!...Os caras lá ficam esperando, não saem, não sabem o que está acontecendo... e saem pré-pautados, vai lá e faz a foto assim assado... é isso, isso, isso, isso e isso... Se bem que em jornal sempre foi mais ou menos assim né? Mas como eu me criei em agência, tinha um outro comportamento, mais engajado... e naquele tempo havia mercado pra gente... Hoje a gente tem a BR Imagens do Vidal Cavalcanti, o Fotosite, tem a Futura Press, estou me lembrando das agências pequenas, guerrilheiras, e os caras se matam pra conseguir sobreviver, pra conseguir vender uma foto, fazer um negócio, conseguir construir um nome, uma estrutura, até conseguir se bancar...
Comecei a trabalhar em 86 mas vender foto mesmo, trabalhar e aprender mesmo o fotojornalismo foi na Angular em 88. Aí já teve a campanha de 89, com Collor, teve todo o processo do impeachment, depois trabalhei na campanha de 94 do Fernando Henrique, na Veja ainda eu fiz a campanha de 98 e aí no meio de 99 eu saí da revista. Na verdade fui demitido, não por problema pessoal, era coisa política mesmo, eu brigava muito com o chefe, sempre tive boca grande, fala o que pensa ... Hoje menos! Também nem preciso mais ficar falando um monte, né? (risos). Esta coisa impulsiva que eu tinha, de ficar reclamando e brigando também era uma forma de protesto, mas hoje eu vejo que não foi a melhor estratégia. Isso acabou não facilitando a minha vida, não foi a melhor saída. A gente tem que ter jogo de cintura, saber negociar, ceder alguma coisa aqui e conquistar outra depois... Política não é só confronto...Política é estratégia. Tem que saber usá-la... O MST tem muita estratégia! O próprio Movimento dos Sem-Tetos também, para poder atuar, né? E a gente também tem que ter, o fotógrafo, para poder sobreviver dentro deste mercado e pra conseguir tirar leite de pedra, pra conseguir mais trabalho... Tem muita gente...Um monte de gente fazendo cursos. Aqui na Imã tem curso...Senac tem curso...não sei lá onde tb tem curso...Então o cara que já sabe um pouco, faz um curso assim com o Walter Firmo, que é um negócio caro, mas aí faz direito! Vai assim na jugular do Walter Firmo (risos) e fica lá sugando o sangue dele, aprendendo tudo o que quer e o que não quer, aí o cara sai bonito! E aí se for um cara caprichoso! Porque fotografia não é só aquela coisa contemplativa, dá trabalho, tem aquela coisa de abaixar no chão, levantar, subir, descer, esperar, se o cara tiver paciência e todos estes elementos, o cara acaba virando um bom fotógrafo, acaba se destacando, é o caso do Tuquinha, o Tuca Vieira. É novo, um cara bacana, se dedicou. Mas é um lampejo, o cara tem que ser muito bom, senão não rola!
Bem e dentro desta dita crise nas empresas jornalísticas como é que fica o profissional num mercado saturado de novos e bons talentos e essas empresas que fazem de tudo para a mão-de-obra ser cada vez mais barata?
Isso é uma coisa americana né? Tudo é lucro....o conceito deles é ter lucro...e a partir de 90, 91 isto começou a tomar ainda mais fôlego nas empresas jornalísticas. Então, porra porque gastar um monte de filme? Agora vai ser um filme por matéria... porque aí o custo vai diminuir tanto...estamos ganhando! Pô, porque fica tanto tempo este cara na reportagem? Vai lá fazer a pauta e volta logo, vai gastar menos transporte...ahhh não vamos contratar fotografo não, vamos pegar a foto da agência....Ah já tem um fotógrafo lá da Reuters, em Recife, para que vamos mandar fotógrafo pra fazer a greve dos policias? Não precisa...E aí tudo fica em função dos custos, né? O que é que é mais barato?
E hoje os custos são ainda menores não?
Apesar de hoje os custos serem menores, o pessoal ainda reclama muito mesmo, pois seguem esta lógica do lucro. Os caras sempre vão reclamar, nunca vai estar bom. Nunca. Só ficaria bom se o caras ganhassem, assim, 100%! (risos pra não chorar)
E a reportagem fotográfica?
Pois é, acabou aquela coisa de fine art, do ensaio em preto em branco, aquelas reportagens de vinte páginas....A reportagem passou a ser desnecessária... Vai lá e resolve o buraco da minha página....Eu comecei a sentir mais sinais disso em 93, 94, depois que o FHC foi eleito. Porque no governo Collor foi palhaçada! Mas com o FHC, as empresas jornalísticas fecharam muito com o governo... No apoio incondicional, na troca de favores, as estações de TV... E tinha um monte de coisas acontecendo: cabeamento, fibra ótica, internet, tv a cabo, computadores nas redações. Então estavam todas as empresas jornalísticas interessadas em pegar este filão, este novo mercado que estava se abrindo nos meios de comunicação. É uma explicação tosca, tem muito mais água rolando por baixo, mas basicamente é isso!
E Egberto, qual então é a essência do fotojornalista? O mundo tá numa baita transformação radical nas comunicações, no mercado, na política, etc... o que sempre sobra para ser um bom repórter-fotográfico?
Bem primeiro tem que ter um baita de um tesão porque ser fotojornalista não é uma coisa muito fácil...Tem que ter raça, tem que ser um cara aguerrido, ágil e eu ainda acho que o cara tem que ser bem informado! E que tenha muita vontada de ter aquele trabalho servindo para alguma coisa. É isso! A essência do fotojornalista é prestar serviço à sociedade, é por aí... Não é fazer foto cabeçona, diferente, sabe? O que adianta isso se o povo não vai entender? O que adianta? Tinha uma época que eu ficava fazendo loucuras, mas aí parei e pensei, pô o que adianta fazer uma loucura assim e até o cara entender que esta loucura é uma foto, já era... Então é menos técnica e é mais prestar serviços mesmo... Pô cê vai fazer um quebra-quebra, cê tem que ter a foto do cara quebrando, não adianta ficar lá pegando os caquinhos no chão, fazendo uma arte. Não que seja proibido, mas o que é prestar serviço com a fotografia? É contar uma estória, criar uma interpretação fotográfica de um fato e que tenha haver com o próprio fato e que conte o fato...
Certos assuntos me comovem mais do que outros. Então eu fui no acampamento dos sem terras e os caras me conhecem. Sabem quem eu sou, sabem que podem confiar em mim. Fiquei lá com os caras, retratando e convivendo. Por exemplo, em 90 fui um dos primeiros a fotografar o RAP, nunca tinha ouvido falar de RAP mas fui lá fotografar o hip-hop, os Racionais, com a conivência dos caras, e porquê? Porque fui conhecer a comunidade, o líder comunitário, e conhecia a música black, o Public Enemy, o Spike Lee. Fiz umas fotos do Mano Brown e dos Racionais MC´s numa construção toda detonada, e já naquela época eles eram arredios.
Egberto, hoje há uma maior disponibilidade da informação para todos, e da casa do repórter ele praticamente tem uma redação inteira, a internet. Vc acha que daqui a alguns anos haverá um boom de profissionais engajados, aquele velho fotojornalista clássico que investiga, se pauta e vai atrás?
Não. Eu vejo o pessoal saindo das escolas de fotografia e talvez caindo pra esta área, mas o cara está mais preocupado com a técnica, com a luz, com o estilo, do que com a história, com a realidade. Eu quero fazer foto bonita também, bem composta, estética, mas eu quero saber o que estou falando, pra quem eu estou prestando um serviço. Não quero fazer fotos só pra expôr, não quero que meu trabalho só tenha uma utilidade deste tipo, e que é elitista né, de uma certa maneira...
Num jornal e numa revista a gente tem uma utilização mais rápida da imagem. Quer dizer, eu faço fotojornalismo ainda. As pessoas ainda se lembram das reportagens que fiz na Febem, nas favelas, nos movimentos políticos, e me chamam para fazer pautas, e de uma maneira geral eu continuo fazendo uma ou duas matérias deste tipo por ano, eu gosto de estar com o povão, com a cultura popular, com a maioria!
Mas os jornais têm muitas reportagens que são legais. O pessoal ainda está lá! Tem gente pra caramba! Tem o Antônio Gaudério, a Mônica Zaratini, o Maurilo Clareto, o Moacir Lopes Jr., o Conceição, o João Bittar como editor no Diário de São Paulo, a Marlene Bérgamo, que aliás tem um trabalho super bonito que ela batalha com a ONG dela. Ela luta, intervem e faz um serviço útil para a sociedade. Eu também quero fazer isso. Meu trabalho tem que ser isso! Quero mudar o foco da Galeria, vou falar mais ao povão também. Já não ganho dinheiro mesmo falando com a elite então vamos com o povo.
E como foi a transformação de um fotojornalista para um dono de galeria?
Este aqui é um trabalho político! Sempre foi político. Na verdade estamos criando um espaço, criando outras possiblidades! Por exemplo, teve o Juca Varella fazendo um workshop sobre a experiência na Guerra do Iraque, tem as aulas do Firmo, tem os eventos diversos e que são públicos...
Ainda estou aprendendo. Enquanto estou fazendo, estou aprendendo... Reunimos os trabalhos mais diversos aqui, então temos 160 fotógrafos aqui na galeria. Então tá o Duran, o Cristiano Mascaro, o Gaudério, o Juvenal Pereira, Penna Prearo, Cláudio Edinger, German Lorca, Rosa Gauditano, Juca Martins, Cristiana Villares, etc, etc, tem um monte de gente aqui...Então é uma referência! E por enquanto tenho mais gastos e custos do que rendimentos, mas quando começar a rolar uma certa estabilidade financeira, aí quero fazer mostras e exposições com temáticas sociais, quero dizer não só com temáticas puramente políticas mas também exposições sobre religiosidade, o budismo, etc, enfim atividades linquadas com os temas da sociedade.
Então você anda fazendo fotojornalismo com a Imã, certo?
A galeria não é uma revista, um jornal, um site jornalístico, mas é um meio de comunicação também. E eu quero fazer a Imã chegar cada vez mais perto do perfil do que eu acredito...gostaria cada vez mais aqui na galeria de uma fotografia que se proponha a um questionamento, não só estético, mas de vida mesmo! Então quero fazer várias exposições temáticas linquadas com a realidade, com a vida na sociedade. Não quero que seja só uma galeria comercial, quero que tenha uma função social, cultural!
Legal Egberto! E vai dar muito certo! É obvio! Vai dar certo! Vai dar certo!