abril 22, 2005

Olhares do Morro

Informação é poder. A história confirma esta equação, sempre foi assim. No site Olhares do Morro (http://www.olharesdomorro.org), jovens moradores da favela de Santa Marta e de outras comunidades tem a possibilidade de espalhar os seus olhares, através da fotografia e da internet, e ajudar a construir sua própria história e disponibilizar a todos um novo país cheio de lirismo, de poesia e também da dura realidade da vida à margem da sociedade industrial de consumo. É um olhar que às vezes podemos perceber na preocupação de alguns fotógrafos profissionais mas que raramente ultrapassam o território das galerias ou dos livros de arte. No site, além do talento fotográfico destes jovens, une-se a naturalidade e a magia daqueles que retratam o seu próprio cotidiano, a sua intimidade, o seu grito. São jovens que logo cedo estão tendo a possibilidade de unir a sua vivência de cidadãos pobres de um dos países de maior concentração de renda do mundo com a produção de informação. O projeto coletivo do Olhares do Morro também tem uma função educativa, permitindo que os jovens se instrumentalizem com as novas tecnologias e linguagens e que também tenham a percepção do processo de construção das identidades. É o povo finalmente influindo na comunicação de massa, e não como espectador mas como produtor. E está mais do que na hora das pessoas poderem “contaminar” (disponibilizar informações mais pessoais) a produção da informação visual “mainstream” que se faz neste país e que nem sempre está pautada pela responsabilidade e que muitas vezes privilegia somente o mercado, as vendas, o Brasil que tem grana, não importa quem esteja a sua frente. E esta imposição do olhar que se produz, para o consumo, na minha opinião, só contribui para distanciar ainda mais as pontas que emergem da renda concentrada. É uma mídia que separa, tanto na publicidade como no jornalismo, e acho que no nível de conflitos sociais em que vivemos tudo o que a gente menos precisa é de desinformação e preconceitos. Se nas favelas, há muito, a música fez a sua revolução, espalhando sua poesia e melodias pelos asfaltos das cidades tenho certeza que uma nova geração de Cartolas, Jorges Benjores e Manos Browns da fotografia ou da literatura sairão desta experiência ou de outras tantas, e não vejo a hora de chegar logo o dia, em que informação de qualidade venha de todos os lados e para todos. Parabéns ao fotógrafo Vincent Rosenblatt, idealizador e semeador do projeto, e parabéns a todos os fotógrafos e participantes do Olhares do Morro.



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