
Prefeitura de São Paulo, Centro
Trabalhadores sem-teto acampam em frente a prefeitura: Luta por moradia

Largo São Bento
Notas de um sábado em São Paulo
Por Luciana Benatti
Comprei a última edição da Trip, aquela com a capa do Chico. Na primeira olhada, topo como a foto do Paulo Mendes da Rocha, braços abertos e copo de cerveja na mão, comemorando a conquista do Prêmio Pritzker. O cenário não poderia ser outro: um típico boteco brasileiro, segundo se deduz da própria imagem e nos confirma o texto. As colunas de pastilhas, as toalhas verdes e vermelhas, o balcão, a TV ligada num jogo de futebol. Tudo isso me pareceu muito familiar. Sim, era o Califórnia, um legítimo representante do gênero, na esquina da Gabus Mendes com a Basílio da Gama. Pois foi justamente no Califórnia que jantamos um belo filé à parmegiana em pleno toque de recolher de segunda-feira, quando os paulistanos correram para casa e as ruas ficaram desertas.
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“É na cidade que estão as virtudes da vida contemporânea.” “É mais fácil imaginar uma cidade para todos do que só para alguns.” “Tudo o que nos falta é porque maliciosamente foi negado.” Com as palavras da entrevista que fizemos com Paulo Mendes ainda ecoando na cabeça, saímos para ver o centro em noite de Virada Cultural. Mais interessados em observar o movimento do que curtir um show específico, andamos para lá e para cá, atentos à circulação das pessoas. Na Barão de Itapetininga, o movimento era o normal para as noites de sábado. Catadores estacionavam suas carroças e se preparavam para dormir em frente às portas de ferro já baixadas das lojas. Vendedores de CDs e DVDs piratas tentavam com uma barreira de títulos em exposição conquistar os últimos clientes. Em frente ao Teatro Municipal, o cenário já era bem diferente. Um grupo de ciclistas estava pronto para começar seu passeio noturno, uma fila de pessoas aguardava o início do próximo espetáculo no teatro e muita gente apenas estava por ali observando o movimento. A semana havia sido pesada. O policiamento nem era tão ostensivo. E as pessoas não aparentavam estar com medo. Pela simples presença de outras pessoas, como que a lhes dar proteção.
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Cruzando o Viaduto do Chá, chegamos à Praça do Patriarca, onde dois telões exibiam um filme mudo. Seguindo pela rua de São Bento, chegamos ao Largo do Café, transformado em pista de dança com luzes e DJ. Continuando pela São Bento, excepcionalmente movimentada para o horário, demos com a praça Antonio Prado, onde o governador Claudio Lembo e uma pequena comitiva andavam pelo calçadão. Deu vontade de cumprimentar o homem pela entrevista corajosa. Sim, aquela mesmo, culpando a elite branca. Deu vontade de perguntar o que ele achava de estar sendo chamado de trotskista de direita pela cúpula do PFL. Mas fomos apenas andando junto com o grupo. No caminho, as pessoas paravam e o cumprimentavam. Será que depois da crise ele ficou mais conhecido? Em frente ao prédio do gabinete do governador, na rua Boa Vista (por que ele não aproveita, dá uma banana ao Morumbi, e vem governar aqui no centro?), ele se despede com aperto de mão e beijinho. Tem as mãos quentes, apesar de a noite estar fria.
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No Largo de São Bento, topamos com uma roda de hip hop e o pessoal da Associação Cultural Cachuera. Resolvemos cruzar o Vale do Anhangabaú e encontramos muita gente destemida fazendo o mesmo. Embaixo do Viaduto do Chá, encontramos o Mercado Mundo Mix fechado. Assim como o acesso às escadas rolantes da Galeria Prestes Maia. Contornamos por trás o prédio da Prefeitura e subimos a Dr. Falcão até a Praça do Patriarca, aonde chegamos bem na hora em que Paula Pretta e Adriana Pires, do Fulerô o Esquema, cantavam uma versão do hino nacional com o verso “terra roubada” no lugar de “adorada”. O logo do Unibanco estava lá; os mendigos, também. A novidade na praça era o batalhão de banheiros químicos (por que só em dias de evento acham que é preciso ter banheiro público no centro?) e um serviço de manobrista a R$ 15, comodidade igual à das melhores casas da Vila Olímpia.
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O grand finale foi chegar à praça Dom José Gaspar – tão atraente de dia e tão pouco aproveitada à noite – e vê-la repleta de gente ouvindo um concerto de piano. Essa foi para mim a imagem que melhor ilustrou o que nós paulistanos estamos perdendo dia após dia. E que é, para voltar ao pensamento do mestre Paulo Mendes da Rocha, a própria razão que nos trouxe até aqui: a possibilidade da convivência. Andar à noite nas ruas do centro e, em vez de vê-las desertas, encontrar outras pessoas fazendo o mesmo foi uma sensação reconfortante. E, mais do que os shows e apresentações em si, foi o que de melhor a Virada Cultural proporcionou a nós paulistanos: a possibilidade da convivência nas ruas, uma das maiores virtudes da cidade contemporânea.




Nelson Triunfo e seu filho de 2 anos: onde tudo começou






Largo São Bento, rapaz da Congada, e Praça do Patriarca, durante show do Fulerô o Esquema

Viaduto do Chá

Praça Dom José Gaspar

Depois da entrevista corajosa, olha só quem eu cruzo por acaso, lá na Rua São Bento. Parabéns governador!

Cláudio Lembo, governador de São Paulo.
"Tudo o que nos falta é porque maliciosamente foi negado", Paulo Mendes da Rocha, arquiteto





Paulo Mendes da Rocha e Luciana Benatti
Veja aqui o vídeo multimídia, que nós (a Lu, eu e o editor de arte, Marcos Moitas) preparamos para o site da revista Arquitetura e Construção:
http://casa.abril.com.br/arquitetura/paulomendes/
por MÔNICA BERGAMO
Colunista da Folha de S.Paulo
O governador de São Paulo, Cláudio Lembo, afirma que o problema de violência no Estado só será resolvido quando a "minoria branca" mudar sua mentalidade. "Nós temos uma burguesia muito má, uma minoria branca muito perversa", afirmou. "A bolsa da burguesia vai ter que ser aberta para poder sustentar a miséria social brasileira no sentido de haver mais empregos, mais educação, mais solidariedade, mais diálogo e reciprocidade de situações."
Lembo criticou o ex-governador Geraldo Alckmin, que disse que aceitaria ajuda federal contra as ações do PCC se ainda estivesse no cargo, e o ex-presidente FHC, que atacou negociação entre o Estado e a facção criminosa para o fim dos ataques. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
Folha - Os jornais estão noticiando hoje [ontem] que houve uma matança em São Paulo na madrugada de terça. A polícia está sob controle ou está partindo para uma vingança?
Cláudio Lembo - A polícia está totalmente sob controle. Eu conversei muito longamente com o coronel Elizeu Eclair [comandante-geral da PM] e estou convicto de que ela está agindo dentro dos limites e com muita sobriedade. Todas as noites há confrontos nas ruas da cidade e esses conflitos foram exasperados nesses dias. Mas vingança, não. A polícia agiu para evitar o pior para a sociedade.
Folha - Foram 93 mortes. Elas estão dentro dos limites? O senhor tem segurança que todos que morreram estavam em confronto?
Lembo - E o conflito que houve da cidade com a bandidagem? Foi violento. É possível que tenha havido tragédias, mas pelo que estou informado não houve nada que fosse além dos confrontos diretos.
Folha - Só no IML (Instituto Médico Legal) estão 40 mortos e não se sabe nem o nome dessas pessoas.
Lembo - Os nomes vão ser revelados. Estamos resolvendo questões burocráticas, de identificação, mas vão ser revelados.
Folha - Jornalistas da Folha entraram no IML e viram fotos de pessoas mortas com tiros na cabeça. Que garantia a sociedade tem de que não morreram inocentes e de que o Estado, por meio da polícia, não está executando essas pessoas?
Lembo - Não está, de maneira alguma. E digo a você: fui muito aconselhado a falar tolices como "aplique-se a lei do Talião". Fui totalmente contrário. Faremos tudo dentro da legalidade e do Estado de Direito.
Folha - O senhor não se assusta com o número de mortos?
Lembo - Eu me assusto com toda a realidade social brasileira. Acho que tudo isso foi um grande alerta para o Brasil. A situação social e o câncer do crime é muito maior do que se imaginava. Este é o grande produto desses dias todos de conflito. Nós temos que começar a refletir sobre como resolver essa situação, que tem um componente social e um componente criminoso, ambos gravíssimos. O crime organizado trabalha com a droga. A droga é um produto caro, consumido por grandes segmentos da sociedade. Enquanto houver consumidor de drogas, haverá crime organizado no tráfico. É assim aqui, na Itália, nos EUA, na Espanha. O crime se alimenta do consumidor de drogas.
Folha - E da miséria...
Lembo - Talvez no Brasil tenha esse componente também. O crime organizado destruiu valores. O Brasil está desintegrado. Temos que recompor a sociedade. A questão social é muito grave.
Folha - O senhor é um homem público há tantos anos, está num partido, o PFL, que está no poder desde que, dizem, Cabral chegou ao Brasil.
Lembo - Essa piada é minha.
Folha - O que o senhor pode dizer para um jovem de 15 a 24 anos, que vive em ambientes violentos da periferia? Que ele vai ter escola? Saúde? Perspectivas de emprego? Como afastá-lo de organizações criminosas como o PCC?
Lembo - Acho que você tem duas situações muito graves: a desintegração familiar que existe no Brasil, e a perda... Eu sou laico, é bom que fique claro para não dizerem que sou da Opus Dei. Mas falta qualquer regramento religioso. O Brasil está desintegrado e perdeu seus valores cívicos. É ridículo falar isso mas o Brasil só acredita na camisa da seleção, que é símbolo de vitória. É um país que só conheceu derrotas. Derrotas sociais...Nós temos uma burguesia muito má, uma minoria branca muito perversa.
Folha - Que ficou assustada nos últimos dia.
Lembo - E que deu entrevistas geniais para o seu jornal. Não há nada mais dramático do que as entrevistas da Folha [com socialites, artistas, empresários e celebridades] desta quarta-feira. Na sua linda casa, dizem que vão sair às ruas fazendo protesto. Vai fazer protesto nada! Vai é para o melhor restaurante cinco estrelas junto com outras figuras da política brasileira fazer o bom jantar.
Folha - Tomar conhaque de R$ 900 [preço de uma única dose do conhaque Henessy no restaurante Fasano].
Lembo - Nossa burguesia devia é ficar quietinha e pensar muito no que ela fez para este país.
Folha - O senhor acha que essas pessoas são responsáveis e não percebem?
Lembo - O Brasil é o país do duplo pensar. Conhecemos a inquisição de 1500 até 1821. Então você tinha um comportamento na rua e um comportamento interior, na sua casa. Isso é o que está na sociedade hoje. Essas pessoas estão falando apenas para o público externo. É um país que é dúbio.
Folha - Onde o senhor responsabiliza essas pessoas?
Lembo - Onde? Na formação histórica do Brasil. A casa grande e a senzala. A casa grande tinha tudo e a senzala não tinha nada. Então é um drama. É um país que quando os escravos foram libertados, quem recebeu indenização foi o senhor, e não os libertos, como aconteceu nos EUA. Então é um país cínico. É disso que nós temos que ter consciência. O cinismo nacional mata o Brasil. Este país tem que deixar de ser cínico. Vou falar a verdade, doa a quem doer, destrua a quem destruir, porque eu acho que só a verdade vai construir este país.
Folha - Mas qual é, objetivamente, a responsabilidade delas nos fatos que ocorreram na cidade?
Lembo - O que eu vi [nas entrevistas para a Folha] foram dondocas de São Paulo dizendo coisinhas lindas. Não podiam dizer tanta tolice. Todos são bonzinhos publicamente. E depois exploram a sociedade, seus serviçais, exploram todos os serviços públicos. Querem estar sempre nos palácios dos governos porque querem ter benesses do governo. Isso não vai ter aqui nesses oito meses [prazo que resta para Lembo deixar o governo]. A bolsa da burguesia vai ter que ser aberta para poder sustentar a miséria social brasileira no sentido de haver mais empregos, mais educação, mais solidariedade, mais diálogo e reciprocidade de situações.
Folha - O senhor diria que elas pensam que aquele rapaz de 15 a 24 anos, que vive perto da selvageria...
Lembo - ...pode ser o Bom Selvagem do Rosseau? Não pode.
Folha - O endurecimento na legislação pode resolver o problema?
Lembo - Transitoriamente pode resolver. Mas se nós não mudarmos a mentalidade brasileira, o cerne da minoria branca brasileira, não vamos a lugar algum.
Folha - O senhor diz que muita gente falou besteira sobre os episódios. Dos EUA, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso criticou a possibilidade de o governo ter feito acordo com os criminosos para cessar a violência.
Lembo - Eu acho que o presidente Fernando Henrique poderia ter ficado silencioso. Ele deveria me conhecer e conhecer o governo de SP. Eu não posso admitir nem a hipótese de se pensar isso. Para opinar sobre um tema tão amargo, tão grave, ele teria que refletir, pensar. E se informar. Quanto ao presidente [FHC], pode ser que eventualmente ele tenha precedente sobre acordos. Eu não tenho.
Folha - Vimos o senhor dando muitas entrevistas na TV. Mas SP teve um outro governador [Alckmin], tem um candidato ao governo e ex-prefeito [Serra]. O senhor ficou sozinho?
Lembo - No poder, um homem é absolutamente solitário. Houve momentos em que praticamente fiquei sozinho. Mas devo agradecer a Polícia Militar e a Polícia Civil também, que estiveram firmes ao meu lado.
Folha - O ex-governador Alckmin telefonou para o senhor em solidariedade?
Lembo - Dois telefonemas.
Folha - O senhor achou pouco?
Lembo - Eu acho normal. Os pulsos [telefônicos] são tão caros...
Folha - E o candidato José Serra?
Lembo - Não telefonou. Eu recebi telefonema da governadora Rosinha [do Rio de Janeiro] e de Aécio Neves [governador de MG], que estava em Washington, ele foi muito elegante. Um ofício do governador Mendonça, de Pernambuco. Recebi muitos apoios, do Poder Judiciário, e a Assembléia Legislativa, deputados de todas as bancadas, nenhum partido faltou.
Folha - As autoridades paulistanas garantiram, nos últimos anos, que o PCC estava desmantelado, que era um dentinho aqui ou ali. Elas enganaram os paulistanos?
Lembo - Não saberia responder. Eu não engano. Eu acho que nós ganhamos uma situação mas é um grande risco. Temos que ficar muito atentos.
Folha - Essas autoridades garantiram que o PCC tinha acabado. Ou elas enganaram...
Lembo - Ou o dentinho era maior do que elas diziam.
Folha - Ou foram incompetentes. O senhor vê terceira alternativa?
Lembo - Pode ser que tenham sido exageradas no momento de transferir segurança. Quiseram ser tranquilizadoras.
Folha - Então elas iludiram as pessoas?
Lembo - É possível.
Folha - O senhor pode dizer que o PCC pode acabar até o fim de seu governo?
Lembo - Só se eu fosse um louco. E ainda não estou com sinal de demência. Acho que o crime organizado é perigosíssimo. Ele se recompõe porque ele tem possibilidades enormes na sociedade.
Folha - O ex-presidente Fernando Henrique não telefonou?
Lembo - Não, não. Ele estava em Nova York. O presidente Lula telefonou, foi muito elegante comigo. Conversei muito com o presidente, ele me deu muito apoio. E o Márcio [Thomaz Bastos] veio, conversamos firmemente, com lealdade. E ele chegou à conclusão que não era necessário nem Exército nem a guarda nacional. Tivemos uma conversa responsável, e o equilíbrio voltou. Mostrei que a Polícia Civil e a Polícia Militar tinham condições de fazer retornar a SP a ordem e a disciplina social.
Folha - O Datafolha mostrou que 73% acham que o senhor deveria ter aceitado ajuda federal. O governador Alckmin disse que não rejeitaria a ajuda.
Lembo - Ele decidiria, se fosse governador, como achava melhor. Eu decidi da forma que achei melhor. Quanto às outras pessoas, faltou clareza de informação da minha parte. E aí me penitencio. Não é que não aceitei ajuda do governo. Ao contrário. Desde sempre houve vínculo forte entre o sistema de informação da polícia federal e a polícia de SP. A superintendência da PF em SP foi extremamente leal, solícita e dinâmica.
Eu tinha uma Polícia Militar muito aparelhada. Eu não poderia tirar esse respeito e esse moral que a tropa tinha que ter naquele momento tão difícil aceitando tanques de guerra do Exército. E aí uma sociedade que gosta de paternalismo, como a brasileira, queria Exército, tropas americanas, tropas alemãs, tropas de todo o mundo aqui. Não é assim.
Temos que ser fortes, saber decidir em momentos difíceis e dar valor ao que é nosso. Foi o que fiz. Em 48 horas liquidou-se o problema. O Exército é para matar o adversário. Eu queria recolher os adversários possíveis. Nós estávamos num conflito social.
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Avenida 23 de Maio
Educafro e outros movimentos estudantis negro interditam a avenida por alguns minutos para exigir direito a educação.

Largo do Paissandu, Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos
Dança, cantoria e discursos por uma sociedade mais justa, tolerante e menos racista.