"Tudo o que nos falta é porque maliciosamente foi negado", Paulo Mendes da Rocha, arquiteto





Paulo Mendes da Rocha e Luciana Benatti
Veja aqui o vídeo multimídia, que nós (a Lu, eu e o editor de arte, Marcos Moitas) preparamos para o site da revista Arquitetura e Construção:
http://casa.abril.com.br/arquitetura/paulomendes/
Ei finalmente enfrentei o eco todo da gravação e hei, hou, tá aqui a transcrição completa do meu bate-papo com o Egberto Nogueira! Ufa, depois de horas e horas, missão cumprida!
Egberto Nogueira fazendo a História em sua Ímã Fotogaleria, que em breve terá grandes novidades e mudanças.
Ei Egberto, repórter-fotográfico tem que engolir sapo mesmo?
Não tem jeito. O tempo todo a gente engole sapo. Pô, até como dono de galeria tô aqui engolindo sapo, meu... Sou o dono e o tempo todo tenho que engolir sapo...
E também tem que ganhar mal, abaixo da tabela da categoria de fotojornalista?
Ah isso já não existe, é tudo ficção! Quase ninguém respeita, poucas são as empresas. Tem a tabela institucional né? Os caras não pagam não...Pô, tem um fila, se você não for, a fila anda, número dois, número três, número quatro...
E sempre foi assim?
Nem sempre foi assim. Então no meu tempo, que não é tão longuinquo assim, não sou um cara tão velho, não pro jornalismo, comecei com vinte anos, ainda peguei um resto disso! Na década de 70 e de 80 o Brasil viveu um momento político muito definido, por causa da ditadura, da censura, então a grande massa de intelectuais, da classe média intelectualizada, jornalistas, eles não compactuavam com o autoritarismo. Eram contra. E isso dava uma certa coesão à classe. As pessoas se interessavam por sindicalismo, se interessavam por mobilização social, se interessavam por movimentos pela mudança, pelas causas sociais, contra a quebra das liberdades políticas, então isso acabava aglutinando a classe fotográfica e por consequência ela trabalhava com certas regras. Então, por exemplo, ninguém cobrava menos que o outro, sabe? Tudo bem, sempre tinha um f.d.p. mas era uma exceção. Não era a regra. Hoje a regra é o salve-se quem puder! E aí a exceção é o cara que diz, não, não cobro menos que aquele outro cara. E se vc fizer isso, vc é uma exceção à regra...Naquele tempo não, era o contrário. A regra era cobrar o valor do sindicato. Enfim, todo mundo cumpria isso daí... Tem outras coisas, também... Todo mundo era mais politizado, todo mundo era a fim de derrubar o governo, a ditadura, de se mobilizar. Existia um espírito coletivo, tanto é que o PT nasceu neste período, né, as greves em São Bernardo dos Campos em 78, 79. Foi aí que eu comecei a brotar, a sair da casca do ovo, assim. Pra você ter uma idéia comecei a militar politicamente aos 13 anos, 14 anos. Eu já era um puta comunistinha, andava de boina, isso moleque, ia pra favela, tal, fazia trabalho de base, colaborava com a igreja até, que era bastante politizada e tal...
E nesta época que vc começou os veteranos também eram assim?
Total! O charme de ser fotojornalista era ser um cara combativo, um cara aguerrido, né, um cara guerilheiro, não pra pegar em armas, mas o cara que ia pra pauta pra pegar aquela foto que, porra!, mostrava o bastidor do poder, o podre, a sacada irônica. Vc pega o fotojornalismo da decada de 70 e 80 , são fotos assim sarcásticas. Então, por exemplo, tem o Geisel numa foto com um militar atrás, e o fotógrafo buscou encaixar o quepe do militar na cabeça do presidente que tava vestido como civil, né, e foi capa da revista Veja. Então tinha esta leitura, o fotógrafo era um cara que conhecia o que estava falando e o jornais também publicavam.... Hoje em dia, por exemplo, uma greve na Paulista, uma passeata, não dá primeira página nunca, entendeu?
As empresas jornalísticas então mudaram?
Mudaram de foco, sabe. O jornal agora publica muito comportamento, viúvas que são casadas com homens mais jovens, sabe, estas bobagens, aumentou o número de lojas de beleza pra cachorros, sabe? Naquela época não se via muito isso. Os próprios donos das empresas jornalísticas eram pouco contra a falta de liberdade de imprensa. Então isso propiciava um clima de luta, né, o sindicato e a classe jornalística eram mais coesos. Então eles se defendiam melhor... mas também nunca foi uma grande categoria, não pelo menos desde que eu conheço... que eu acompanho...Não é exatamente uma categoria organizada, batalhadora...
Os caras que iam para o jornalismo eram caras que tinham um certo comprometimento com a sociedade, iam para o jornalismo como uma maneira de estar denunciando, de estar questionando a sociedade, e eu acho que sou a última geração disso até porque eu conheço o pessoal que veio depois né? E tem pouca gente de destaque, a moçada nova, por exemplo que tem um pique deste, tem o João Wainer. Que é a geração seguinte. Que eu me lembre assim tem um ou dois mais assim... Que tem um perfil mais mano, que tá ligado nas estórias, né? Porque hoje mudou né? A parada não é mais comunista. O cara é mais mano, tá mais ligado no movimento social de outra maneira, pela questão racial, pela questão da música, da exclusão social, da coisa da periferia, da cultura e da arte que vem da periferia que tem um pouco né da cultura popular e tal...na nossa época era também cultura popular, todos os fotógrafos viam nisso uma contracultura, uma coisa anti-imperialista, anti-americana, anti-colonialista, anti-dominação. As pessoas tinham muita consciência disso. Isso era geral, não só no jornalismo. No cinema, por exemplo, também. Então tem o cinema novo na decada de 70, até o comecinho da decada de 80. O cinema brasileiro tinha este espírito e tal. E hoje também está retornando, só que numa outra abordagem, de morro, de favela, de realidade, não é uma abordagem política exatamente, quer dizer, é também, mas com outros enfoques...
Mas não tá tudo perdido não... não é isso...só acho que é uma fase. Naquele tempo, para ser considerado um bom fotógrafo não bastava saber fazer foto. E hoje basta. O cara no jornal só faz retrato, só faz boneco, pros cadernos de imóvel, ou para as revistas de domingo dos jornais. É boneco sobre boneco, são bem feitos e tal, quer dizer, o cara para fazer aquilo lá, ele pode não saber nada de nada, entendeu? Não saber política, o que está acontecendo no país! Ninguém mais milita politicamente em nada, simplesmente porque o trabalho não exige.
E hoje são poucos os que se pautam, não é?
Pô, eu comecei na Agência Angular, e eu tinha obrigação de ler 5 ou 6 jornais por dia, de ouvir rádio pra caramba, de ver o Jornal Nacional, o Jornal da Globo, de ficar ligado....a gente se telefonava um pro outro pra ver o que estava acontecendo... A gente se sentia responsável pela notícia e ia lá, cobria e fazia a cobertura.... hoje em dia não!!!...Os caras lá ficam esperando, não saem, não sabem o que está acontecendo... e saem pré-pautados, vai lá e faz a foto assim assado... é isso, isso, isso, isso e isso... Se bem que em jornal sempre foi mais ou menos assim né? Mas como eu me criei em agência, tinha um outro comportamento, mais engajado... e naquele tempo havia mercado pra gente... Hoje a gente tem a BR Imagens do Vidal Cavalcanti, o Fotosite, tem a Futura Press, estou me lembrando das agências pequenas, guerrilheiras, e os caras se matam pra conseguir sobreviver, pra conseguir vender uma foto, fazer um negócio, conseguir construir um nome, uma estrutura, até conseguir se bancar...
Comecei a trabalhar em 86 mas vender foto mesmo, trabalhar e aprender mesmo o fotojornalismo foi na Angular em 88. Aí já teve a campanha de 89, com Collor, teve todo o processo do impeachment, depois trabalhei na campanha de 94 do Fernando Henrique, na Veja ainda eu fiz a campanha de 98 e aí no meio de 99 eu saí da revista. Na verdade fui demitido, não por problema pessoal, era coisa política mesmo, eu brigava muito com o chefe, sempre tive boca grande, fala o que pensa ... Hoje menos! Também nem preciso mais ficar falando um monte, né? (risos). Esta coisa impulsiva que eu tinha, de ficar reclamando e brigando também era uma forma de protesto, mas hoje eu vejo que não foi a melhor estratégia. Isso acabou não facilitando a minha vida, não foi a melhor saída. A gente tem que ter jogo de cintura, saber negociar, ceder alguma coisa aqui e conquistar outra depois... Política não é só confronto...Política é estratégia. Tem que saber usá-la... O MST tem muita estratégia! O próprio Movimento dos Sem-Tetos também, para poder atuar, né? E a gente também tem que ter, o fotógrafo, para poder sobreviver dentro deste mercado e pra conseguir tirar leite de pedra, pra conseguir mais trabalho... Tem muita gente...Um monte de gente fazendo cursos. Aqui na Imã tem curso...Senac tem curso...não sei lá onde tb tem curso...Então o cara que já sabe um pouco, faz um curso assim com o Walter Firmo, que é um negócio caro, mas aí faz direito! Vai assim na jugular do Walter Firmo (risos) e fica lá sugando o sangue dele, aprendendo tudo o que quer e o que não quer, aí o cara sai bonito! E aí se for um cara caprichoso! Porque fotografia não é só aquela coisa contemplativa, dá trabalho, tem aquela coisa de abaixar no chão, levantar, subir, descer, esperar, se o cara tiver paciência e todos estes elementos, o cara acaba virando um bom fotógrafo, acaba se destacando, é o caso do Tuquinha, o Tuca Vieira. É novo, um cara bacana, se dedicou. Mas é um lampejo, o cara tem que ser muito bom, senão não rola!
Bem e dentro desta dita crise nas empresas jornalísticas como é que fica o profissional num mercado saturado de novos e bons talentos e essas empresas que fazem de tudo para a mão-de-obra ser cada vez mais barata?
Isso é uma coisa americana né? Tudo é lucro....o conceito deles é ter lucro...e a partir de 90, 91 isto começou a tomar ainda mais fôlego nas empresas jornalísticas. Então, porra porque gastar um monte de filme? Agora vai ser um filme por matéria... porque aí o custo vai diminuir tanto...estamos ganhando! Pô, porque fica tanto tempo este cara na reportagem? Vai lá fazer a pauta e volta logo, vai gastar menos transporte...ahhh não vamos contratar fotografo não, vamos pegar a foto da agência....Ah já tem um fotógrafo lá da Reuters, em Recife, para que vamos mandar fotógrafo pra fazer a greve dos policias? Não precisa...E aí tudo fica em função dos custos, né? O que é que é mais barato?
E hoje os custos são ainda menores não?
Apesar de hoje os custos serem menores, o pessoal ainda reclama muito mesmo, pois seguem esta lógica do lucro. Os caras sempre vão reclamar, nunca vai estar bom. Nunca. Só ficaria bom se o caras ganhassem, assim, 100%! (risos pra não chorar)
E a reportagem fotográfica?
Pois é, acabou aquela coisa de fine art, do ensaio em preto em branco, aquelas reportagens de vinte páginas....A reportagem passou a ser desnecessária... Vai lá e resolve o buraco da minha página....Eu comecei a sentir mais sinais disso em 93, 94, depois que o FHC foi eleito. Porque no governo Collor foi palhaçada! Mas com o FHC, as empresas jornalísticas fecharam muito com o governo... No apoio incondicional, na troca de favores, as estações de TV... E tinha um monte de coisas acontecendo: cabeamento, fibra ótica, internet, tv a cabo, computadores nas redações. Então estavam todas as empresas jornalísticas interessadas em pegar este filão, este novo mercado que estava se abrindo nos meios de comunicação. É uma explicação tosca, tem muito mais água rolando por baixo, mas basicamente é isso!
E Egberto, qual então é a essência do fotojornalista? O mundo tá numa baita transformação radical nas comunicações, no mercado, na política, etc... o que sempre sobra para ser um bom repórter-fotográfico?
Bem primeiro tem que ter um baita de um tesão porque ser fotojornalista não é uma coisa muito fácil...Tem que ter raça, tem que ser um cara aguerrido, ágil e eu ainda acho que o cara tem que ser bem informado! E que tenha muita vontada de ter aquele trabalho servindo para alguma coisa. É isso! A essência do fotojornalista é prestar serviço à sociedade, é por aí... Não é fazer foto cabeçona, diferente, sabe? O que adianta isso se o povo não vai entender? O que adianta? Tinha uma época que eu ficava fazendo loucuras, mas aí parei e pensei, pô o que adianta fazer uma loucura assim e até o cara entender que esta loucura é uma foto, já era... Então é menos técnica e é mais prestar serviços mesmo... Pô cê vai fazer um quebra-quebra, cê tem que ter a foto do cara quebrando, não adianta ficar lá pegando os caquinhos no chão, fazendo uma arte. Não que seja proibido, mas o que é prestar serviço com a fotografia? É contar uma estória, criar uma interpretação fotográfica de um fato e que tenha haver com o próprio fato e que conte o fato...
Certos assuntos me comovem mais do que outros. Então eu fui no acampamento dos sem terras e os caras me conhecem. Sabem quem eu sou, sabem que podem confiar em mim. Fiquei lá com os caras, retratando e convivendo. Por exemplo, em 90 fui um dos primeiros a fotografar o RAP, nunca tinha ouvido falar de RAP mas fui lá fotografar o hip-hop, os Racionais, com a conivência dos caras, e porquê? Porque fui conhecer a comunidade, o líder comunitário, e conhecia a música black, o Public Enemy, o Spike Lee. Fiz umas fotos do Mano Brown e dos Racionais MC´s numa construção toda detonada, e já naquela época eles eram arredios.
Egberto, hoje há uma maior disponibilidade da informação para todos, e da casa do repórter ele praticamente tem uma redação inteira, a internet. Vc acha que daqui a alguns anos haverá um boom de profissionais engajados, aquele velho fotojornalista clássico que investiga, se pauta e vai atrás?
Não. Eu vejo o pessoal saindo das escolas de fotografia e talvez caindo pra esta área, mas o cara está mais preocupado com a técnica, com a luz, com o estilo, do que com a história, com a realidade. Eu quero fazer foto bonita também, bem composta, estética, mas eu quero saber o que estou falando, pra quem eu estou prestando um serviço. Não quero fazer fotos só pra expôr, não quero que meu trabalho só tenha uma utilidade deste tipo, e que é elitista né, de uma certa maneira...
Num jornal e numa revista a gente tem uma utilização mais rápida da imagem. Quer dizer, eu faço fotojornalismo ainda. As pessoas ainda se lembram das reportagens que fiz na Febem, nas favelas, nos movimentos políticos, e me chamam para fazer pautas, e de uma maneira geral eu continuo fazendo uma ou duas matérias deste tipo por ano, eu gosto de estar com o povão, com a cultura popular, com a maioria!
Mas os jornais têm muitas reportagens que são legais. O pessoal ainda está lá! Tem gente pra caramba! Tem o Antônio Gaudério, a Mônica Zaratini, o Maurilo Clareto, o Moacir Lopes Jr., o Conceição, o João Bittar como editor no Diário de São Paulo, a Marlene Bérgamo, que aliás tem um trabalho super bonito que ela batalha com a ONG dela. Ela luta, intervem e faz um serviço útil para a sociedade. Eu também quero fazer isso. Meu trabalho tem que ser isso! Quero mudar o foco da Galeria, vou falar mais ao povão também. Já não ganho dinheiro mesmo falando com a elite então vamos com o povo.
E como foi a transformação de um fotojornalista para um dono de galeria?
Este aqui é um trabalho político! Sempre foi político. Na verdade estamos criando um espaço, criando outras possiblidades! Por exemplo, teve o Juca Varella fazendo um workshop sobre a experiência na Guerra do Iraque, tem as aulas do Firmo, tem os eventos diversos e que são públicos...
Ainda estou aprendendo. Enquanto estou fazendo, estou aprendendo... Reunimos os trabalhos mais diversos aqui, então temos 160 fotógrafos aqui na galeria. Então tá o Duran, o Cristiano Mascaro, o Gaudério, o Juvenal Pereira, Penna Prearo, Cláudio Edinger, German Lorca, Rosa Gauditano, Juca Martins, Cristiana Villares, etc, etc, tem um monte de gente aqui...Então é uma referência! E por enquanto tenho mais gastos e custos do que rendimentos, mas quando começar a rolar uma certa estabilidade financeira, aí quero fazer mostras e exposições com temáticas sociais, quero dizer não só com temáticas puramente políticas mas também exposições sobre religiosidade, o budismo, etc, enfim atividades linquadas com os temas da sociedade.
Então você anda fazendo fotojornalismo com a Imã, certo?
A galeria não é uma revista, um jornal, um site jornalístico, mas é um meio de comunicação também. E eu quero fazer a Imã chegar cada vez mais perto do perfil do que eu acredito...gostaria cada vez mais aqui na galeria de uma fotografia que se proponha a um questionamento, não só estético, mas de vida mesmo! Então quero fazer várias exposições temáticas linquadas com a realidade, com a vida na sociedade. Não quero que seja só uma galeria comercial, quero que tenha uma função social, cultural!
Legal Egberto! E vai dar muito certo! É obvio! Vai dar certo! Vai dar certo!
Aqui vão três entrevistas para estudantes que dei. A da Regiane eu acabei de responder. O Gim Tones deu aula
04/02/03
Regiane, graduação, Ciências Sociais, UFSC
As perguntas são super abertas, o nosso objetivo é conseguir a opinião de quem está em contato com os meios de comunicação. As respostas servirão de base para elaborarmos uma resenha crítica e para promovermos debates em sala.
Então vamos lá, na verdade o assunto é como a mídia brasileira vem tratando a violência urbana. Você pode acrescentar exemplos se quiser mas não precisa citar os nomes dos meios.
1- Como você define violência urbana?
Posso definir a violência urbana como a resposta imediata, negativa e agressiva de uma ato de injustiça histórica de como se formaram as grandes cidades brasileiras e suas populações. Esta resposta aparece na lógica excludente de como se planeja o espaço urbano, ou se manifesta a partir da impunidade e da imunidade daqueles que corrompem os bens e o dinheiro públicos. Na falta de perspectivas e de sonhos de uma grande parcela da população que é sistematicamente marginalizada desde há muito tempo. Na distorção de valores e conceitos, sei lá, morais que transformam cidadãos em meros consumidores, ou que transformam excluídos sociais em meros bandidos. Não tenho base estatística ou científica nenhuma para fazer estas afirmações só estou me baseando nas minhas experiências como fotojornalista ou como leitor e telespectador, ok?
2- O que vc pensa sobre como a mídia em geral vem tratando os casos de violência? Como isto influencia a realidade, ou as pessoas?
A mídia reflete o pensamento de quem comanda a própria mídia. E quem a comanda se vê como vítima da violência. Não acredito que seja um discurso intencional, aquele que sempre coloca o jovem negro de favela como o agente numero um desta violência toda. Mas é assim que eu percebo a cobertura da mídia. Ainda que se fosse intencional, seria mais fácil de combatê-la. Seria só o caso de usar a razão. Mas o que acho que ocorre é um problema de mentalidade histórica bastante arraigada no pensamento e no imaginário de nossas elites culturais e políticas. Simplesmente rola um baita racismo neste país e ninguém quer admitir. é sistemático. As pessoas acreditam que o crime e a violência se originam das favelas, dos guetos. E a mídia reforça este ideário. Até numa mídia mais independente, que no caso seria o cinema, podemos ver reproduzidos os mesmos preconceitos. É o caso do Cidade de Deus, de Fernando Meireles. É um filme, um recorte da realidade, cinema de primeira qualidade, mas não é a vida real, é ficção, é um olhar sobre uma realidade. Ninguém sai do filme Pulp Fiction, ou do Clube da Luta achando que o mundo é daquele jeito. Mas do Cidade de Deus, todos saem com a certeza que na favela só tem maníacos, traficantes e pistoleiros. E que é na favela que o dinheiro do tráfico fica... e que são aqueles chinelados que negociam com as polícias federais e com altas esferas do judiciário, ou do empresariado, etc...para trazer e exportar as drogas, etc.
A nossa sociedade e sua mídia em geral se limitam a explicar o fenômeno e o problema da violência somente em sua superfície. Elas mostram os efeitos da violência. E que eficiência! E o público adora ver, ler e comprar estas tragédias do cotidiano. Revistas de importância para a transformação de nossa sociedade, se limitam a dar uma capa sobre um médico que matou a amante. E quem fala de toda a injustiça que vem desde a época da escravidão? e quem dá a capa para as causas desta injustiça toda? desta concentração de renda toda? E o contrário? quem fala das qualidades deste povo todo?
Seria um transtorno muito grande (e oneroso) reparar esta dívida social e histórica que as elites devem àqueles que sobrevivem mal e porcamente... Assim é mais fácil ser racista mesmo e fingir que não se é! Vamos mostrar os pobres em nossos jornais... mas só se o ibge lançar algum número sobre a miséria, como se a pobreza só existisse enquanto estes dados estatísticos estiverem fresquinhos. Vamos mostrá-los qdo ocorrer alguma rebelião, ou quando uma tragédia natural ( vamos responsabilizar a natureza) dizimar algumas dezenas de pessoas. Pode-se mostrar também qdo ocorre alguma manifestação ou protesto, e melhor ainda se dois ou três quebrarem algum carro, ou depredarem alguma coisa. Aí teremos aquelas belas imagens de carros queimando, ou de "manifestante" chutando a portão de loja... Ah, tem aquela coisa de bunda, futebol e carnaval que vendem bem pacas...
Nesta coisa de mídia, o ruim é que a crise tá tão brava que os repórteres, os editores, reproduzem os desejos e a visão de mundo dos donos dos meios de comunicação, sem querer esquentar muito a cabeça, sem muita auto-crítica e nem crises existenciais. Sei lá, os operários da informação deveriam ser mais críticos e independentes, mais rebeldes... Mas rebeldia, neste tempo de vacas magras, serve só pra ficar desempregado... Assim a mídia segue fazendo o que bem entende, mostrando a realidade como ela bem quer...
3- Existe alguma orientação do meio para o qual trabalha ou presta serviço, para tratar os assuntos relacionados a violência urbana?
Acho que a orientação básica seria, torne a notícia o mais sensacional possível. Seja um urubu, torça pelo pior e traga algo que venda!
4- Existe conflito entre o que você presencia e sente e como o fato é tratado pelos editores e apresentadores finais?
Sim. Em termos gerais, os editores já tem uma idéia pré-concebida do que eles querem no final do dia. Então nada importa do que vc presenciou ou sentiu! sentimentos! não estão em nossos manuais. A menos que seja sensacional e que venda mais...Cada vez mais tenho a impressão que editor eficiente é aquele que consegue tirar o máximo de seus repórteres e colaboradores, pagando o mínimo possível. Ou seja, um puxa saco e um fdp total!
5- Você sente que tem liberdade para escrever ou mostrar o que quer?
Na grande mídia, não.
Se trabalho para algum veículo sou obrigado a cumprir as pautas do dia. Não há espaço para autonomia nas reportagens. E se ofereço alguma matéria independente, como freela, há o problema do péssimo pagamento que editores espertos oferecem. Pagam uma micharia e depois vão se gabar com os chefes de redação, por serem tão bons editores e negociadores.
Puts, mas justiça seja feita, há algumas excessões...Pouquíssimas, infelizmente.
Mas atualmente com a internet há uma certa liberdade sim. Mas têm os limites da falta de um orçamento adequado para se produzir informação de qualidade. Fica tudo meio mambembe. É interessante pois tem lá a sua áurea de romantismo...Mas também daqui a algum tempo, todos estes conglomerados de comunicação, de tele comunicação ou os grandes bancos que hoje estão perdendo milhões vão passar a caneta sobre nós, depois que nos tornarmos potenciais usuários, consumidores e dependentes desta nova tecnologia. aí a festa toda vai acabar...E a informação estará ainda mais restrita frente ao poder econômico. Só fará a internet quem pagar e caro por isso! Muito caro, tenho certeza.
6- Existe a intenção de chocar ou de amenizar os fatos?
Chocar, sem dúvida nenhuma. Para o bem ou para o mal, chocar! Se for pra amenizar é melhor nem gastar tinta...
7 - Na sua opinião, qual seria a melhor maneira para se tratar do assunto?
Acho que a imprensa acerta ao mostrar mesmo os vários casos de violência. Sensacionalistas ou não, etc. Mas erra tremendamente ao não mostrar de onde vem todas estas suas causas. Por pura preguiça, ou mediocridade, ou talvez má-fé mesmo! Erra ao subestimar e não conhecer quem é a maioria da população brasileira. Erra ao ser preconceituosa e racista. E finalmente a culpa desta violência toda está em todos nós. Não somos vítimas nem somos inocentes! Admitir este fato talvez já seja um grande passo em direção a uma mudança de mentalidade, e quem sabe na busca de uma sociedade realmente mais justa, e com certeza menos violenta.
:: 4.2.03 :: :
...
27/08/02
Tânia,
A Ética e Estética do Uso de Imagens no Fotojornalismo Brasileiro,
Pós-Graduação da Faculdade de Jornalismo e Editoração da ECA/USP
Desculpe-me o incomodo. Estou entrando em contato porque gostaria de entrevistá-lo para minha dissertação de mestrado. Estou estudando o fotojornalismo brasileiro na pós-graduação da ECA/USP. Meu orientador é o fotografo e pesquisador Boris Kossoy que esta me ajudando também nestas entrevistas. Com o seu consentimento irei enviar as perguntas por e-mail e acrescentá-las às outras já existentes (Niels Andreas, Jorge Pedro Souza, Silas Botelho, João Primo, Eder Chiodetto, Alberto Dines)
1. Por que você escolheu a fotografia ?
Primeiro escolhi o jornalismo. E lá fui eu fazer a faculdade Cásper Líbero. Mas no meio do caminho, fui viajar solitário, pelo Velho Chico, câmara em punho, e descobri a fotografia.
Convivi com um monte de gente ao longo do rio e a câmara me permitiu um tipo de contato que me fascinou. Neste começo (1991) tudo o que eu fazia passou a ser centrado na fotografia.
E ao longo do tempo só fui confirmando o acerto desta minha escolha. Afinal fotografia é comunicação. É estar no local dos fatos e olhar, respirar fundo e começar a clicar. É conviver, é respeitar as pessoas. É ter como obrigação estar sempre atento a luz.
E além do mais tem esta coisa de captar as imagens a partir da realidade e todas as surpresas que podem ocorrer desta quase mágica tentativa.
2. Qual a função da fotografia na sociedade atual ? E nos meios de comunicação de massas, mais especificamente, no jornalismo ?
3. A fotografia influencia a opinião publica ?
Infelizmente a fotografia é utilizada como mero instrumento ilustrativo. E geralmente para se vender algo: algum produto, alguma idéia, etc.
Na publicidade, por exemplo, utiliza-se a fotografia para vender produtos e pelo que parece, é uma forma bem efetiva de comunicação. Ora, se a fotografia tem até este poder de criar desejos de consumo, ela também pode influenciar a opinião pública.
É claro que esta influência está afinada com o discurso daqueles poucos quem detêm as empresas de comunicação e que estes estão a serviço daqueles que concentram a renda no país.
A fotografia não é trabalhada em seu verdadeiro potencial. As reportagens fotográficas praticamente não existem mais. Aliás nem as reportagens! Os jornais, as revistas vivem reclamando da crise econômica, da falta de leitores, etc. E qual empresa investe em formação de novos leitores. Qual a revista que está preocupada em formar cidadãos, a refletir a identidade brasileira em suas páginas, a mostrar os dramas da população? Qual editora ou jornal no Brasil que não trata os seus leitores como basicamente consumidores?
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4. Percebi que suas fotos sao muito proximas da noticia, do personagem fotografado. Mesmo quando ha uma certa distancia, no caso especifico uma fotografia da Marta Suplicy no helicoptero, a sensação é que estamos ao lado do persongem. Isto me lembrou a frase de Robert Capa: "se a foto não é boa, é porque você não estava próximo o bastante". Você acha que uma das "lições de casa" do fotojornalista é estar o mais próximo possível da notícia ? Essa proximidade seria uma das diferenças entre fotografia e fotojornalismo ?
Sim, o repórter fotográfico tem que estar o mais próximo possível da notícia. Na essência desta profissão, a presença física junto, ou perto dos fatos é obrigatória. E em tempos de internet e de todas as suas facilidades para se apurar informações, acho que é dever de todo fotojornalista ter mais iniciativa e ir atrás das estórias. Acho que o jornalismo impresso tem muito a ganhar com esta maior independência dos fotojornalistas, pois pensar uma pauta apartir das imagens pode subverter a maneira como a informação é produzida e assim pode-se contribuir para uma maior riqueza na mediação dos fatos.
5. O que você acha do fotojornalismo brasileiro e mundial ?
O Brasil tem fotojornalistas geniais mas revistas e jornais burros e pão-duros! Lá fora as coisas parecem ser bem mais fáceis, pelo menos para se ter o mínimo de dignidade e respeito profissional. Por aqui, por exemplo, posso afirmar que todas as empresas de comunicação sistematicamente desrespeitam as leis de uma maneira ou de outra (atraso nos pagamentos, contrato de cessão de direitos autorais unilaterias e escandalosos, freela fixo ou coberturas de férias por longos períodos, não pagamento de horas extras ou da utilização dos equipamentos fotográficos, ignoram a tabela de preços do sindicato, etc,etc). Mas apesar disto tudo, temos fotógrafos geniais de sobra. José Bassit, Antônio Gaudério, Rogério Albuquerque, Ernesto de Souza, Dado Galdiere, Ed Viggiane, Marlene Bergamo, etc,etc...
6. A fotografia é o espelho da realidade, ou o fotografo interfere nessa imagem criando uma segunda realidade ?
7. Qual o grau de interferência do editor ?
A fotografia não é espelho da realidade e sim um olhar sobre ela. O fotógrafo interfere num primeiro momento qdo ele captura (ou não...) a imagem apartir do real. E o jornal interfere num segundo momento qdo ocorre a escolha final da fotografia. Esta edição tem variáveis: o tempo hábil para a escolha da foto (qto menor o tempo, pior a escolha); quem escolhe a foto (o editor, o sub, o pauteiro, o fotógrafo, etc, etc); o formato já paginado; a imagem que melhor se encaixe ao que já se pré concebeu sabe lá por quem; se vai numa página colorida ou não; em revistas, se vai numa página par ou impar (!!!), etc, etc.
Tive a sorte de trabalhar com o João Bittar, na época editor de fotografia da folha de sp. O João é um tipo de editor que está preocupado em dar as melhores condições de trabalho para os fotógrafos. Ele confia no trabalho de sua equipe e sua interferência na escolha das fotos é mínima, dando liberdade e responsabilidade para que o próprio fotógrafo edite o seu material (qdo este tem tempo também).
8. Uma situação que vejo acontecer muito é o uso de imagens parecidas em jornais supostamente concorrentes. Não estou falando do uso de imagens de agencias noticiosas. Vi fotografias na Folha e no Estadão de fotógrafos diferentes com ângulos parecidos. Essas imagens, por coincidência, foram escolhidas por editores para ilustrar a primeira pagina. Quero saber se na sua opinião existiria uma estética comum entre os fotógrafos ?
Não acredito em estética comum. Pode haver coincidências, o uso de um mesmo adjetivo para se compor a foto ou de um mesmo verbo para se escolher o instante. Dentro do jornalismo, a fotografia pode se dar ao luxo de não ser sempre objetiva, tal como o texto deve ser, por decreto dos fazedores de manuais de redação! Ainda não conseguiram banir a intuição e o inesperado no fazer do fotojornalismo. Mas, se os dois jornais concorrentes tem a mesma foto na capa é porque o fato era realmente importante e a assessoria de imprensa devidamente convidou os dois jornais para a cobertura e os fotógrafos tiveram que ficar confinados num mesmo local, e a ação aconteceu em poucos segundos. Ou seja, a mesma foto óbvia, a mesma cobertura preguiçosa e sem muita ousadia para se descobrir novos pontos de vista.
9. Recentemente um jornal brasileiro publicou uma imagem sobre o frio da cidade de São Paulo. Era um homem encapotado embaixo de um termômetro da Av. Paulista. Foi primeira pagina. Só que o personagem era o motorista do jornal posando para o fotógrafo, em suma uma mentira e uma manipulação. Situações como esta acaba colocando em xeque o trabalho de fotojornalistas. Você acha que existe ética no trabalho de fotojornalistas ?
Claro que existe ética no trabalho do fotojornalista, tanto qto existe ou não ética no trabalho de qq outro profissional. Não quero defender a foto em questão, mas infelizmente dentro deste nosso contexto de imprensa, de lógica de produção de informação, não vejo muita diferença entre colocar um motorista encapotado e a Débora Secco, encapotada. Se fosse a atriz arrepiada de frio, toda global, sob o mesmo termômetro, para a mesma "reportagem", nenhum ombudsman estaria dando a mínima, fosse a foto capa ou não, estivesse ela com frio ou não, conhecesse ela ao fotógrafo ou não. Ética? Importante mesmo é que as vendas e os anúncios não caiam.
Se formos analisar as imagens de, sei lá, 80% das matérias das principais revistas brasileras, podemos ver que as fotos são todas posadas (tirando as fotos das agências). Será que assim os custos e o investimento são menores? Será que esta estética está sendo deliberadamente criada para se diminuir os custos? Sera que já não estamos vendo um monte de motoristas encapotados nas fotografias dos semanais?
10. Está havendo uma espetacularização da fotonotícia ?
Sim. A notícia é mais barata de ser produzida. A notícia é descartável e superficial. E se o publico parece gostar é o que se vai entuchar goela abaixo.
11. Li que a miséria é fotogênica. Qual a sua opinião?
Quaisquer dos dramas humanos são fotogênicos. E a miséria é uma situação de desumanidade extrema. Sim a miséria é fotogênica. Por isto, fotografar a miséria não pode ser um ato gratuíto. A miséria tem que ser mostrada, mas sempre dentro de um discurso objetivo e responsável.
:: 4.2.03 :: :
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11/06/2002
Tathi, Graduação, Jornalismo, UniSant'Anna
1- Como foi tomada a decisão pelo curso de Jornalismo?
2- Quando nasceu a paixão pela fotografia?
1 e 2- Eu achava que o jornalismo daria perspectivas de poder vivenciar o Brasil. Adorava ler as reportagens e aquilo era o que eu queria fazer. Ainda no primeiro ano da faculdade, fiz uma viagem pelo rio São Francisco, sozinho e com uma câmara fotográfica, um bloco de anotações e uma mochila nas costas. Eu já fotografava um pouco, em preto e branco. Um amigo meu,arquiteto, tinha um laboratório e assim que ele se casou passou o lab para a minha casa. Comecei a passar horas dentro deste laboratório. Isto me dava tanto prazer qto estar nas ruas fotografando. Outra coisa que me levou à fotografia eram as bibliotecas que tinham acervos maravilhosos de livros de fotografia. Toda vez que eu saia de lá, ficava louco de vontade de fotografar mais e mais. Se antes o que me interessava era a literatura, passei a ficar até um pouco bitolado com a fotografia. só queria saber de fotos... livros de fotos, exposição, o meu laboratório, a minha câmara, as pessoas que ia conhecendo e suas duras realidades...
Indico as bibliotecas da Casa da Fotografia Fuji, do Centro Cultaral SP ( não sei como está agora), do Senac na rua scipião, do museu lasar segall, e os sebos do centro onde encontrei ótimos livros.
3- Quais foram as dificuldades enfrentadas para atuar na área fotojornalística?
3 - O mercado tradicional de fotografia e de comunicação está muito fechado. É preciso matar um leão todos os dias. Terminei a faculdade de jornalismo, mas fotografava basicamente em pb. e assim fui passar uma temporada de 1 ano em Londres, só fotografando em cores. O mercado exige que o fotógrafo trabalhe com cor. Voltei com um portfólio sobre a europa, em cor, e com ele finalmente entrei no mercado de fotojornalismo.
Mas a grande dificuldade é o desrespeito com o profissional. Não digo que isto só acontece com os fotógrafos. acontece tb com os jornalistas em geral. Entrar no mercado é fácil... o problema é se manter dentro dele sem que as empresas te explorem ao máximo. Aos olhos dos empresários, quem está começando tem certas vantagens. custa pouco! por isto não é tão difícil entrar. Claro que tem que ter competência técnica, interesse e segurança para fazer o básico.
Tem diversos mecanismos, que as empresas de comunicação usam para poder explorar a mão de obra dos operários da informação. Pagamentos atrasados, desrespeito com as tabelas dos sindicatos, horas extras não pagas, uso da mão de obra dos estagiários ou dos freelas fixos ( cobertura de férias) por longos períodos e com baixos salários e sem efetivação...
Passei um tempo na isto é, e na folha. Foi mais como um aprendizado e utilizei-me das estruturas delas para poder viabilizar os meus trabalhos pessoais.
Infelizmente nossa classe dos jornalistas é muito fraca e desorganizada. As empresas deitam e rolam sobre os fotógrafos e sobre os jornalistas... esta sim é uma verdade que as revistas, jornais, tvs e rádios não tem o mínimo interesse de divulgar.
4- Quais foram os trabalhos fotográficos mais arriscados e os mais emocionantes de sua carreira?
4- Duas vezes fomos ameaçados de morte. as duas vezes nas eleições de 2000. e as duas vezes com o mesmo repórter, Roberto Cosso, da FSP. Uma na Paraíba, numa cidadezinha chamada Diamante o prefeito estava sendo acusado de assassinar o candidato da oposição à prefeitura. Fomos ameaçados pelos comparsas do prefeito e saímos sertão e noite adentro fugindo de carro e desesperados. A outra foi na Zona Sul de SP, qdo o candidato a vereador Milton Leite fazia um churrasco ilegal, durante a campanha, para 500 pessoas. Fomos de novo ameaçados. Outra situação foi qdo eu flagrei um policial algemando crianças na praça da liberdade. Fui agredido pelo PM. Aliás, infelizmente, isto é coisa comum na profissão, ser agredido por policiais, outras vezes por camelôs, ou perueiros, torcedores de futebol, etc.
5- Uma pequena história sobre o seu trabalho fotojornalístico favorito.
5- Na revista Horizonte Geográfico deste mês de junho, tem uma matéria de 18 páginas sobre o rio São Francisco. Tivemos que lutar muito para termos uma boa edição... Enquanto a revista queria mostrar as paisagens, queríamos mostrar as pessoas. Parece que querem esconder a cara dos brasileiros!!! Não consegui entender muito bem. As páginas iniciais não ficaram do nosso agrado (meu e do repórter que viajou comigo, Fábio Murakawa), mas as páginas finais gostamos muito. O texto foi respeitado na medida do possível.
E tem uma matéria que saiu na Caros Amigos em que o repórter Guilherme Azevedo e eu passamos duas semanas morando na perifeira, em volta de um campo de futebol de várzea que acabou se transformando hoje, numa escola municipal.
6- Fotos usadas em exposições etc e seus respectivos dados e/ou premiações (data, exposição, local, etc)
9- Vida acadêmica (pequeno histórico sobre os cursos de graduação, temporada no exterior, os cursos mais importantes)
6 e 9 - link do meu currículo
7- Quem são os seus fotógrafos favoritos?
7 - A lista é imensa. Admiro muito o trabalho do fotógrafo da Folha, Moacyr Lopes Jr. Um verdadeiro repórter daquele que vai atrás da informação sem se importar com o perigo. Claro tem o Sebastião Salgado, os fotógrafos do Bang Bang Club , James Nachtwey, os clássicos Robert Frank, Cartier-Bresson, etc, etc...
8- Que tipo de trabalho é mais prazeiroso p/ vc? (denúncia social, ecologia, artistas, etc)
8- Gosto da temática social. Nem sei se pelo lado da denúncia... talvez mais pelo lado da comunicação. O Brasil é um país carente e a Bélgica só tem notícias da miséria e das tragédias da Índia. Gosto de mostrar esta India pelo lado de suas realizações. É importante denunciar, mas também é importante formar cidadãos. Por isto gosto de pautas que mostrem situações e soluções para os velhos problemas que nos afligem...
10- A fotografia é uma arte e todo artista tem uma fonte de inspiração. Onde vc busca essa inspiração?
10 - Não faço arte... Com certeza o que me incentiva é ajudar a construir um imaginário mais fiel do que é a realidade do povo brasileiro. Eu sei que a minha contribuição é mínima e que não vai mudar nada. Mas sempre que possível, luto para que a foto que mostre a cara dos brasileiros seja a editada. Do jeito que a mídia trata a questão social, tenho a impressão de que todos os pretos e pobres são ladrões ou são coitados. Grande mentira. Talvez a fotografia seja uma chance daqueles belgas poderem entrar em contato com os hindus deste Brasil, sei lá, talvez isto de alguma maneira ajude a tornar este país um pouco menos cruel e um pouco mais justo. Infelizmente não são muitos os que se dispõem a sair do conforto de seus lares para entrarem em contato com os dramas dos outros.
11- Um conselho ou dica para os estudantes de Jornalismo que pretendem atuar na área fotojornalística.
11 - Fazer jornalismo não é só trabalhar numa editora abril, ou numa fsp ou oesp, recebendo ordens! nestes tempos de crise chega a ser um ato de fé que deve ser incorporado ao dia-a-dia. Acho que há novas alternativas para a comunicação. Diante desta urgência toda que acontece no Brasil, desta concentração toda cruel de renda, há uma maior noção de responsabilidade social nas empresas, na política, nas outras organizações. E se elas decidem ser responsáveis socialmente, elas querem mostrar o que estão fazendo... e aí está um grande filão, matéria-prima para reportagens que mostrem um outro lado deste país tão dividido...Eu ainda acho que há uma demanda muito grande por uma informação de qualidade. e na fotografia, os profissionais ainda parecem que preferem receber as pautas de um editor, qdo é possível cada um de nós ter iniciativa para mostrar o que se está fazendo de bom (ou ruim) neste país...Para quem quiser ser fotojornalista, acho que é legal, como exercício, levantar uma pauta (é tão mais prático, agora com a internet) fazer um monte de fotos e ir pras redações vender o seu peixe