janeiro 17, 2006

A favela e o funk em exposição no asfalto carioca

Fotógrafos da Agência Olhares do Morro mostram diferentes visões da vida nas favelas

Revelar um olhar realista sobre as favelas e o funk. Esse é o tema central de uma exposição no Rio de Janeiro com trabalhos inéditos de fotógrafos da Agência Olhares do Morro, que desde 2002 reúne jovens oriundos da Rocinha, Santa Marta e Vidigal – três das maiores comunidades da zona sul carioca. De 1 7 de janeiro até 05 de fevereiro, o público poderá ver uma instalação multimídia interativa, a mostra solo de três autores jovens e um ensaio sobre funk que destacam a estética da favela como espaço privilegiado. Estão programadas também palestras e debates sobre esse gênero musical.

A instalação multimídia é composta por imagens que mostram o "olhar de dentro" das favelas. Em 150 imagens, de autoria de 16 fotógrafos, as favelas são retratadas fora da moldura das lutas de facções e de violências policiais. Apresentada em julho de 2005 nos Encontros Internacionais da Fotografia de Arles no âmbito do ano do Brasil na França, a cenografia da instalação é fruto de um intercâmbio entre os fotógrafos da Olhares do Morro com designers da Escola Nacional Superior de Criação Industrial de Paris (ENSCI).

Também serão exibidos os trabalhos de Daniel Martins (19 anos), que acompanha o seu grupo de amigos e faz uma crônica de amores adolescentes; Ricardo de Jesus (20 anos), com a boêmia na noite da Rocinha; e Ricardo de Sousa (24 anos), com a intimidade dos travestis da mesma comunidade. T odas as imagens possuem formato 24x30 a 50x60. A mostra desses três jovens inaugura a "Galeria Olhares" que surge com proposta de representar no mercado de colecionadores os jovens artistas oriundos do Núcleo de Expressão Visual – paralelamente ao trabalho da agência, esta dirigida à distribuição das imagens na imprensa.

Já o ensaio "Sente a pressão!", de Vincent Rosenblatt, que mergulha no universo funkeiro e capta imagens dos mais variados bailes cariocas.

Hoje, após a abertura da mostra, às 17h, haverá uma palestra de Lesly Hamilton, sobre "O Instante da Percepção. Da Foto-Grafia / Desenho de Luz". A artista introduziu a prática da fotografia na Escola Nacional das Belas Artes de Paris em meados da década de 80 quando a mesma ainda não era considerada como arte.



Imprensa Olhares do Morro: Coletivo Comunicação coletivo.jor@gmail.com

Lise Morosini (21 – 8148 4886)

Geoge Patiño (21 – 9858 1952)

Celso Gorga ( 21 – 8139 26 47)

Sobre Olhares do Morro: www.olharesdomorro.org

Olhares do Morro é uma da poucas agências de fotografias que retrata a vida das favelas e sua dinâmica com o asfalto que a cerca. Seu trabalho foi iniciado na comunidade de Santa Marta, em 2002, com a instalação de um Núcleo de criação fotográfica - um "ateliê selvagem". Jovens oriundos de várias comunidades são os responsáveis pela produção de imagens, que vai do documentário à fotografia criativa. Para eles, a ong oferece capacitação profissional em fotografia e imagem digital e procura aproximá-los do mercado, além de patrocinar sua produção fotográfica. A meta da ong é descobrir e incentivar continuamente jovens talentos visando dar representatividade à agência por meio de sua rede de correspondentes. Atualmente, o Núcleo de Expressão Visual está sendo implementado na Lapa. O reconhecimento internacional veio rapidamente com exposições realizadas na sede da Unesco, em Paris (em 2004) e, em 2005, Arles, Pantin & Compiègne, e participação na feira de Art Basel /Miami Beach, a maior feira de arte contemporânea das Américas.

Sobre o Centro Cultural Telemar

O Centro Cultural Telemar é um espaço voltado para as artes, a tecnologia, o conhecimento e a cidadania. Totalmente sintonizado com a contemporaneidade, foi concebido para levar os visitantes a viverem verdadeiras experiências sensoriais, não só através da arquitetura, mas dos espaços de visitação – galerias, biblio_tec, teatro e cyber restaurante. O Centro Cultural Telemar é um espaço de convergência de culturas, tecnologias, linguagens e pessoas.

Imprensa Centro Cultural Telemar : Máquina da Notícia (21 – 3131 3086 / 3131.3075 )

Teresa Tavares teresa.maquina@contratada.telemar.com.br

Mariana Garcia mariana.souza@maquina.inf.br

Luciana Anselmo lucianaanselmo@telemar-rj.com.br

Serviço:

Olhares do Morro - Instalação Multimídia Interativa (6o andar)

Galeria Olhares - Ricardo de Jesus/ Daniel Martins/ Ricardo de Souza (6o andar)

Sente a Pressão! - Vincent Rosenblatt / Um ensaio fotográfico nos Bailes Funk carioca (5o andar)

Local : Centro Cultural Telemar www.centroculturaltelemar.com.br

End : Rua Dois de Dezembro 63, Flamengo – Rio de Janeiro -Telefone: 21 – 3131 3060

De 17 de Janeiro a 05 de fevereiro 2006, das 11h às 20h
Abertura para convidados: 16 de janeiro, 19h30

No auditório:

- Terça-feira, 17/01, às 17h - palestra de Lesly Hamilton (artista), "O Instante da Percepção

Da Foto-Grafia / Desenho de Luz"

- Terça-feira, 24/01, às 15h – debate: Funk x Mercado, Funk x Liberdade de Expressão

- Terça-feira 31/01, às 15h - workshop: Funk Consciente; às 18h - Ensaio aberto

Posted by fotogarrafa at 06:48 PM

novembro 28, 2005

Pesquisa da FGV apura que miséria no Brasil diminuiu 8%

Pesquisa da FGV apura que miséria no Brasil diminuiu 8% - Economia ::: últimas notícias ::: www.estadao.com.br

Esta queda aconteceu de 2003 para 2004, deixando o País com a menor proporção de miseráveis desde 1992. A redução da taxa foi fortemente influenciada pela queda na distância entre os ricos e pobres no Brasil.


Rio de Janeiro - O índice de miséria no Brasil caiu 8% de 2003 para 2004, deixando o País com a menor proporção de miseráveis desde 1992. A redução da taxa foi fortemente influenciada pela queda na distância entre os ricos e pobres no Brasil, registrada em três anos consecutivos. Somente em 2004, a desigualdade caiu duas vezes mais do que no ano anterior. Os dados são do estudo Miséria em queda Mensuração, Monitoramento e Metas, elaborado com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2004 (Pnad) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e divulgado hoje pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Para o coordenador do estudo, Marcelo Néri, se não houvesse redução na concentração de renda, a queda da taxa de miséria no ano passado teria sido de 2,7%. "Ainda não é possível dizer que a redução do abismo entre ricos e pobres é uma tendência de longo prazo, mas o fato da queda ter acontecido por três anos consecutivos é inédito na história brasileira dos últimos 30 anos, além de ter passado por governos diferentes e de uma maneira muito forte", avaliou.

Néri também atribuiu a queda da pobreza ao crescimento econômico do país e listou fatores como estabilidade da inflação, reajuste do salário mínimo, recuperação do mercado de trabalho, aumento da geração de empregos formais e ainda o aumento da presença do Estado na economia, com uma maior transferência de renda para a sociedade. Ele disse ainda que o aumento da taxa de escolarização da população tem sido fundamental para a redução da desigualdade entre ricos e pobres.

"Há uma nova geração de programas sociais que está fazendo a sociedade brasileira enxergar que é preciso dar mais a quem tem menos e entre os exemplos estão o programa Bolsa Família e o programa de aposentadoria rural. A cobertura destes dois programas alcança os bolsões de pobreza das zonas mais distantes dos grandes centros, reduzindo bastante a miséria no país".

De acordo com o estudo da Fundação Getúlio Vargas, em 2004, 25,08% da população brasileira vivia abaixo da linha de pobreza, ou seja, ganhava menos de R$ 115,00 por mês. Em 2003, eram 27,26% dos brasileiros. Néri explicou que, na avaliação da FGV, o Brasil segue um ritmo compatível com o das Metas do Milênio, que busca reduzir a pobreza à metade em 25 anos (de 1990 a 2015).

As informações são da Agência Brasil.

Posted by fotogarrafa at 09:08 PM

novembro 26, 2005

Ricos continuam ricos

Apesar da manchete ridícula da Folha, o texto se salva

Folha de S.Paulo - RETRATO DO BRASIL
Rico empobrece, e desigualdade diminui - 26/11/2005

ANTÔNIO GOIS
PEDRO SOARES
DA SUCURSAL DO RIO

Renda média continuou estagnada em 2004, porém mais abonados perderam e pobres ganharam um pouco, diz pesquisa do IBGE


No ano passado, o trabalhador brasileiro viu sua renda ficar estagnada em comparação com 2003, mas percebeu um aumento no número de empregos e uma pequena redução da desigualdade. Essas são as principais conclusões da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2004, divulgada ontem pelo IBGE.

Segundo o instituto, o número de empregos aumentou 3,3% em relação a 2003, acréscimo de 2,7 milhões de trabalhadores ocupados no segundo ano do governo Lula. A taxa de desemprego caiu de 9,7% para 9%, o equivalente a 8,2 milhões de desempregados.
Esse aumento de 3,3% foi o segundo melhor da série histórica iniciada em 1992. Ele só não foi mais positivo do que o verificado de 2001 para 2002, último ano do governo FHC, quando houve alta de 3,8% no número de ocupados.
Mas a renda média do trabalhador permaneceu estagnada em R$ 733, já descontada a inflação do período. Com isso, ainda não foi naquele ano que o trabalhador começou a recuperar a perda de 18,8% verificada desde 1996, quando a renda atingiu seu pico e, desde então, só caiu.
Mesmo sem crescimento na renda, a queda no rendimento dos mais ricos, o recuo da inflação e o aumento real do salário mínimo permitiram uma melhor distribuição da renda do trabalho.
A renda média cresceu 3,2% para a metade dos trabalhadores que ganham menos. Nos 50% que ganham mais, no entanto, ela caiu 0,6%. Se forem considerados apenas os 5% de trabalhadores de mais alta renda no ano passado, a queda foi ainda maior, de 1,6%.
Como a renda dos que ganham menos subiu ao mesmo tempo em que caiu a dos mais ricos, melhorou um pouco a distribuição da renda do trabalho.
O índice de Gini, que avalia a concentração de renda, passou de 0,554 em 2003 para 0,547 em 2004 (quanto mais perto de 1, mais desigual é o rendimento; quanto mais próximo de zero, melhor é a distribuição). Esse é o melhor resultado desde 1981.
Desde 1993, esse indicador de distribuição de renda no país mantém uma tendência constante de melhora, mas essa evolução aconteceu, de um modo geral, à custa da queda do rendimento dos mais ricos.
De 1996 a 2004, a renda média dos 10% com maiores ganhos caiu 22,7%. A renda desse contingente vem caindo todos os anos, inclusive em 2004. No mesmo período, o rendimento médio dos 50% de trabalhadores com menor renda teve uma queda menor, de 4,31%. É por essa razão que, apesar desses dois grupos terem perdido, a distribuição de renda melhorou um pouco, já que os mais pobres perderam menos do que os mais ricos.
Para Eduardo Nunes, presidente do IBGE, ainda há um caminho longo a se percorrer para a eqüidade de renda no país. "A distribuição tem evoluído ano a ano, mas num ritmo ainda muito lento. A concentração de renda aqui ainda é muito elevada para países de renda [PIB] compatível com a do Brasil", disse.
Para João Sabóia, diretor do Instituto de Economia da UFRJ, a redução gradual da concentração de renda no Brasil é um fato positivo, ainda que tenha ocorrido em razão da perda dos mais ricos.
"O ideal seria que o índice de Gini melhorasse com todos ganhando, mas com os pobres ganhando relativamente mais do que os ricos. Mas também não é ruim que os mais ricos tenham perdido um pouco. De todo modo, é um processo de redistribuição de renda. Mesmo que a distribuição tenha melhorado continuamente, a renda ainda é muito concentrada no Brasil. Poucos países do mundo ainda têm um grau de concentração como o nosso", disse Sabóia.
Para Sônia Rocha, economista da Fundação Getulio Vargas, essa melhora na distribuição de renda, somada ao aumento do salário mínimo e à ampliação da massa de salários (já que o emprego cresceu, ainda que a renda tenha ficado estável) deve ter impacto sobre a redução da pobreza no Brasil. "Ainda não dá para afirmar seguramente porque é preciso ver os microdados da Pnad, mas meu palpite é que em 2004 houve uma pequena diminuição da pobreza", disse.

Emprego
A taxa de desemprego caiu porque o número de vagas criadas cresceu mais do que o total de pessoas que ingressaram no mercado de trabalho. A PEA (População Economicamente Ativa) subiu 2,5%, e a ocupação, 3,3%.
Em 2004, foram criados num ritmo forte tanto empregos sem carteira (crescimento de 6%) como com carteira (6,6%). Mas houve uma tendência de formalização porque as contratações registradas (1,569 milhão) superaram as informais (1,126 milhão).
Já o número de trabalhadores por conta própria aumentou bem menos (0,6%), o que fez a categoria perder participação no total de pessoas ocupadas. Na esteira da menor evolução do trabalho por conta própria, o emprego sem remuneração, no qual se insere, por exemplo, aquele membro da família que auxilia na banca do camelô ou na birosca da família, cedeu 4,5% de 2003 para 2004. Já o emprego doméstico, puxado pelas contratações sem registro, subiu 4,2%. Também aumentou acima da média o emprego de servidores e militares, em 4,4%.
A participação dos trabalhadores formais foi de 32% em 2003 para 32,9% em 2004. A dos sem carteira aumentou de 23,5% para 24,1%, enquanto a dos que trabalham por conta própria caiu de 22,3% para 21,8%. Já a participação dos não-remunerados caiu de 7,1% em 2003 para 6,5% em 2004. Em 1992, eram 10,5% do total de empregados.
Por setores, foi a indústria que alavancou o emprego, com crescimento de 6,6%, seguida por serviços 4,8%. No setor agrícola, houve queda de 0,5%. Ao todo, fora das atividades desenvolvidas no campo, o emprego cresceu 4,3% em atividades não-agrícolas.

Posted by fotogarrafa at 07:33 PM

outubro 10, 2005

Mano Brown assume defesa do desarmamento

negativo filme, Marcelo Min/ Fotogarrafa, 20030914, Racionais MCs, Mano Brown em show no Itaim Paulista. Entrevista para André Camarante em que diz que votará pelo fim do comércio de armas
Arquivo 14/09/2003, Racionais MCs, Mano Brown, Itaim Paulista

por André Caramante do Jornal Agora São Paulo

A voz de Mano Brown ecoa forte pela quadra da escola de samba São João, encravada na periferia de Mauá, uma das cidades mais pobres do ABC paulista. É madrugada alta, quase 5h do último dia 8, "um sabadão de primavera louco", como gosta de dizer Brown, registrado Pedro Paulo Soares Pereira, 35 anos.
Líder da "família" Racionais MC's e ícone seguido por milhares de jovens, Brown faz uma enquete com os quase 2.000 jovens -alguns poucos alcoolizados- que o vêem, paralisados, cantar seus raps épicos ao lado dos "irmãos" Ice Blue, Edy Rock e DJ KLJay: "Vocês são contra ou a favor do desarmamento?"
Mais da metade dos jovens levanta a mão para defender as armas. Brown, então, pede para um dos jovens a favor das armas subir no palco e contar a razão por que assume essa defesa. Nervoso, o rapaz emenda: "Se os bicos sujos [inimigos] têm o direito de ter arma, nós também temos". O público vibra, aplaude. Brown rebate e diz que a violência, na maioria das vezes, atinge gente igual ao seu público ou seus familiares.
Após o show, ainda no camarim, Brown se dirige ao repórter do Agora e diz: "Você viu só, mano, a molecada quer é andar armada mesmo." Depois de anos sem dar entrevista a um grande órgão da imprensa, Mano Brown falou ao Agora sobre o referendo para a proibição ou não da fabricação e a venda de armas e munições no Brasil, marcado para dia 23:
Agora: Qual é o seu posicionamento em relação ao referendo do dia 23
Mano Brown-Sou a favor do desarmamento, mas essa argumentação é difícil, devia ser de outra forma. Está difícil a colocação das palavras. Sim ao armamento ou sim ao desarmamento. "Vote sim". Mas o bagulho está louco, mano, você viu lá no show, o pessoal quer arma.
Agora: Você tem dois filhos. Você quer que seu filho pegue em armas amanhã?
Brown-Acontece que as pessoas estão vindo como luta de classes, tá ligado, mano? O rico não quer que o pobre se arme e ele fique desarmado. E o pobre não quer que o rico se arme e ele fique desarmado. Você viu o argumento do moleque: "Como é que os policiais vão andar armados e eu vou andar desarmado?" É meio desigual, o argumento. Está confuso.
Agora: Principalmente para o jovem?
Brown-O jovem da periferia vê na arma um instrumento para ascender na sociedade de alguma forma, de ganhar respeito, coisa que ele não conseguiria normalmente, ou não da forma que ele queria.
Agora: Antes de ser o Mano Brown, você pensou em andar armado para ser mais homem ou para ter ascensão social no seu bairro?
Brown-Andei armado para me defender. Andei armado um tempo, não ando mais, não gosto de arma.
Agora: Isso é público? Você não esconde que um dia andou armado?
Brown-Não. Andei armado.
Agora: Hoje, você voltaria a andar, caso corresse risco?
Brown-É difícil porque a gente não sabe o dia de amanhã. Mas eu preferiria não ter uma arma na mão no momento em que fosse necessário. Preferiria não ter. Acho que uma vida humana vale muito mais do que qualquer coisa, e isso é irreversível. Muita coisa que poderia ter sido resolvido na idéia acabou em morte, pelo fato de a arma dar essa sensação de controle total.
Agora: No ano passado, segundo o Ministério da Justiça, 2.947 pessoas foram mortas com armas de fogo só em São Paulo, e a maioria tinha entre 15 e 24 anos, gente que vinha assistir o seu show. Como você vê isso?
Brown-Eu enxergo que está muita pressão em cima dessa geração que está descendo para a rua agora, para a arena, que acabou de sair da adolescência. Está muito pressão sobre eles porque a família, dos que têm, não consegue retribuir o investimento que a família fez neles. Os que não têm não vêem motivação de ser um garoto exemplo, porque os exemplos que estão sendo seguidos são os que andam armados, os que usam a força para conseguir o que querem, seja pobre ou rico.
Agora: Dinheiro fácil, ascensão social fácil?
Brown-Não é fácil porque nunca é fácil quando você arrisca a sua própria vida. Nunca é fácil. O que eu penso é que muitos amigos meus, pessoas de quem eu gostava, poderiam estar vivos hoje, se não fosse a arma. Porque a pressão que a molecada está vivendo vai ser extravasada violentamente, porque eles não são ouvidos. Os anos estão passando, um governo de esquerda já assumiu e era esperança. As coisas estão muito lentas e a periferia é urgente, precisa das coisas para ontem e as coisas não estão acontecendo, está muito nebuloso. Os moleques estão inseguros, eles têm pressa, eles querem viver logo, têm ânsia de viver a vida, viver a vida que é vendida, que é oferecida.
Agora: Via parabólica?
Brown-É, pela televisão. Eles querem viver a vida que todo mundo fala que é boa, que os poetas falam. E eles não estão vendo essa vida, eles estão vivendo uma vida de necessidade, de dia-a-dia difícil, de hostilidade, uma competição hostil o tempo todo, começa dentro de casa. É muita gente para pouco espaço, muita gente para pouco emprego, muita gente para pouco dinheiro, poucas oportunidades, está muito competitivo.
Agora: Você já contou quantos amigos seus foram mortos a tiros?
Brown-Eu não parei para contar, mas eu sinto a falta de vários, vários camaradas que morreram vítimas de violência barata mesmo, de idéia de que poderia resolver trocando idéia. A arma estava fácil. Armamento abundante na mão de pessoas sem estrutura, sem equilíbrio, na mão de pessoas problemáticas. A arma não deveria estar na mão de ninguém, nem a polícia deveria andar armada. É aquilo que o moleque falou: "Por que a arma tem que estar na mão do polícia e na nossa não?" Acho que a partir do momento em que a polícia tem o direito de matar, o cidadão comum também tem. Porque, na verdade, o policial também é um cidadão comum, o governador também é um cidadão comum, ele não tem o direito de matar, ninguém tem o direito de matar. Então, tem que desarmar geral, eu sou a favor de desarmar geral, todo mundo.
Agora: Você ficou decepcionado, triste, quando, durante o show que terminou, viu que a maioria dos jovens quer as armas?
Brown-Eu não fiquei tão surpreso, entendeu. Talvez eu já soubesse, mais ou menos, que a resposta seria essa, porque esse argumento é muito fácil, é o mesmo que os ricos também estão usando. Eu fico sentido porque sei que quem, mais uma vez, se a vontade da periferia for aquela refletida hoje dentro do salão lá, as armas vão continuar na rua. Porque eu vi que a maioria é a favor do armamento. Talvez por não pensar muito, talvez por não analisar um assunto a fundo, como ele precisa ser analisado. Talvez alguns tenham respondido ali da boca para fora, e se respondeu da boca para fora é porque não está pensando tanto no assunto. Isso é preocupante.
Agora: Você acha que o jovem vai votar de qualquer jeito no referendo?
Brown-Está aí o que você falou que eu fiquei sentido, foi isso aí. Eu senti que as pessoas não estão preocupadas com o assunto, tá ligado? Tanto faz. Já estão vivendo a pior parte mesmo, eu estou vendo que, pelos moleques, tanto faz ter arma ou não, eles acham que a vida não vai melhorar. Eles não acreditam na melhora. Eu vejo que os jovens estão sem esperança na melhora.
Agora: Você falou em luta de classes, que o rico quer ficar armado e quer desarmar o pobre, é desse jeito?
Brown-É isso o que eu estou vendo. E o pobre não quer ficar desarmado porque ele sabe que do outro lado vai haver muitas armas contra ele, também. Então virou quase que uma guerra, né? Uma guerra fria. O Brasil está a beira de um... o barril está para explodir mesmo, hein, meu. Se o Lula não conseguir dar um passo, fazer alguma coisa que as pessoas realmente notem. Se esse governo agora, que vai entrar no último ano, não fizer alguma coisa que seja visível aos olhos dos humildes, uma coisa que faça diferença dentro da casa das pessoas, eu acho que a tendência é o Brasil voltar a ter um governo de direita, morô, meu, de pessoas que pregam a arma, pregam a construção de cadeia, tá ligado, que pregam a repressão, e a periferia continuar alienada. Agora, vai se alienar por outras coisas.

Posted by fotogarrafa at 08:06 PM

abril 15, 2004

Vinte anos em Movimento

200107_cromopb Caninde MST crianca engatinhando.jpg

foto 07/2001, Acampamento do MST às margens do Rio São Francisco

Acabei de ver o Stédile na TV Cultura dando entrevista para o Heródoto Barbeiro e deu vontade de entrar no site do MST e como tinha um texto bem interessante sobre os vinte anos deste movimento, tô aqui repercutindo...

Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - Informativos

Vinte anos em Movimento

08/03/2004

da Rits

Marcelo Medeiros e Fausto Rêgo

“A terra para quem nela trabalha e vive”. Ao assinar abaixo dessa frase, a última de um documento escrito em janeiro de 1984, 92 pessoas criavam o que é hoje o maior movimento social do Brasil, quiçá da América Latina. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) nasceu naquele ano, em seu primeiro encontro nacional, realizado em Cascavel (PR). Ao longo desses 20 anos, o MST enfrentou desafios, inclusive internos, para se formar, consolidar e nacionalizar. Destacou-se por sua capacidade de mobilização, ação política e por chamar a atenção para um dos grandes problemas do país: a má distribuição das propriedades rurais, até hoje não resolvido.

Apesar de surgir de forma organizada como movimento nacional em 1984, o MST já vinha sendo planejado bem antes. Depois de muitas promessas - não cumpridas - de ajuda do governo estadual, em 7 de setembro de 1979, 110 famílias ocuparam a fazenda Macali, no município de Ronda Alta, no interior do Rio Grande do Sul. As terras da Macali já haviam sido palco de lutas na década de 60, quando o Movimento dos Agricultores Sem Terra do Rio Grande do Sul (Master) organizara acampamentos na região. Padres da Comissão Pastoral da Terra (CPT), criada quatro anos antes pela Igreja Católica, tiveram papel fundamental no sucesso da empreitada, cuja ação serviu de modelo para outras.

No dia seguinte à ocupação, a Brigada Militar chegou ao local com ordens de despejar os ocupantes. A reação dos agricultores foi imediata. Mulheres pegaram seus filhos e formaram uma barreira em torno do acampamento. Os policiais recuaram e o governo acabou autorizando a permanência das famílias no local. A partir desse exemplo, diversas ocupações aconteceram nos primeiros anos da década de 80, principalmente nos estados da região sul, em São Paulo e no Mato Grosso do Sul.

Com apoio da CPT, diversos agricultores se encontravam em assembléias estaduais e regionais para trocar experiências de suas ações e discutir políticas estaduais de reforma agrária e apoio à pequena agricultura. Em 1982, por exemplo, 100 agricultores de Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul se reuniram em Medianeira (PR), no que foi o primeiro encontro regional dos sem-terra. No ano seguinte, em Goiânia (GO), 52 pessoas, algumas vindas de estados do norte e do nordeste, estiveram presentes em outro evento, cujas resoluções estabeleciam a formação de uma coordenação nacional provisória, encarregada de preparar um segundo encontro com representantes de vários estados.

O segundo encontro acabou se tornando o primeiro oficial do movimento, que já se declarava brasileiro e não apenas regional. Em Cascavel estiveram presentes sindicalistas, agricultores sem terra, agentes da Pastoral e assessores, vindos dos três estados do sul, de São Paulo, Espírito Santo, Pará, Bahia, Goiás, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Acre e do então território nacional de Roraima. Nesse encontro, o movimento ganhou nome, caráter político e forma de ação, resumida no lema “ocupar e resistir”. Não haveria um presidente, pois as decisões caberiam a uma direção coletiva. Foi decidido também que o movimento não seria restrito a agricultores. A eles poderia se juntar qualquer um que quisesse lutar pela reforma agrária.

Para o geógrafo Bernardo Mançano, professor da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) e autor do livro “A formação do MST no Brasil”, naquela época já era possível imaginar a força que o movimento teria. “Quando ele nasceu, não existia outro movimento de sem-terra. Hoje há dezenas. Por isso existia espaço para o MST se territorializar - e ainda há”.

“Nós recuperamos a história da luta pela terra, fazendo uma análise crítica de erros e acertos cometidos por organizações camponesas que vieram antes de nós”, analisa Gilmar Mauro, membro da Coordenação Nacional do movimento. “Conseguimos evitar a repetição desses erros e tivemos sucesso ao colocar no Brasil o debate sobre a reforma agrária”. Ele, que participou de 19 desses 20 anos de história, faz um apanhado dos conceitos que originalmente nortearam o MST: estabelecer rumos claros; entender que é preciso fazer lutas, inclusive a luta política (“Não porque a gente acha bonito, mas porque faz com que as pessoas sejam sujeitos da própria história”); criar consciência política e de organização (“Nos momentos de luta, não se consegue nada se não tivermos o povo organizado para intervir”); manter a unidade, mesmo na divergência; manter a autonomia e buscar ser um movimento nacional.

Tudo isso, segundo o líder camponês, baliza a atuação do MST. “Nós construímos muito no campo da produção, da agricultura ecológica, mas o fundamental mesmo foi o resgate da dignidade humana, da auto-estima das pessoas. Do ponto de vista político, fugimos ao histórico dos movimentos sociais como braços de partidos políticos. O MST construiu sua autonomia, por isso a gente consegue juntar todo mundo, independentemente de religião ou partido: basta ser sem-terra. E isso permite que a gente construa alianças diversas”.

O resultado da organização foi imediato e trouxe reações. Em maio de 1985, as ações de ocupação de terra no oeste de Santa Catarina se intensificaram e serviram para marcar posição contra o recém-elaborado Plano Nacional de Reforma Agrária, favorável à negociação, assim como a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag). No mesmo ano, era realizado, em Curitiba, o primeiro congresso do movimento. “Essas ações serviram para acirrar os ânimos no campo”, diz Leonilde Medeiros, professora do Curso de Pós-Graduação em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (CPDA/UFRRJ) e pesquisadora de movimentos sociais rurais.

Em junho de 1985 foi criada a União Democrática Ruralista (UDR), entidade que reúne grandes fazendeiros de todo o país e se opõe à ocupação de terras. Segundo Medeiros, a oposição fez a violência no campo crescer naquele ano, bem como o número de desapropriações. Dados da Secretaria de Comunicação Social do Governo Federal mostram que no período de 1985 a 1989 foram assentadas 83 mil famílias, seis mil a mais do que entre 1964 e 1985. Neste período, contudo, mais terra foi concedida: 13,8 milhões de hectares contra 4,5 milhões de hectares, por causa da política de colonização de áreas pouco habitadas no governo militar. De acordo com dados da Comissão Pastoral da Terra e do MST, em 1983 foram assassinadas no campo 81 pessoas. Em 1984, 124; no ano seguinte, 171. Ou seja, um crescimento de 37% do primeiro para o segundo ano de movimento; mais de 100% de diferença entre 1983, ano anterior à fundação da iniciativa, e 1985.

Apesar da violência, o MST insistiu na estratégia de ocupar terras para pressionar o governo a acelerar o processo de reforma agrária. Medeiros aponta a Constituinte como vitória e derrota do movimento. A Constituição passa a prever a desapropriação de terras que não cumpram sua “função social” para fins de reforma agrária. “A definição de função social foi um avanço por incluir o respeito à legislação trabalhista, respeito ao meio ambiente e índices de produtividade”, diz. O problema, segundo a professora, é que até hoje não ficou claro o que é terra produtiva, e isso abre espaço para muitos recursos.

Reflexões

Nessa época o movimento percebe a necessidade de ir além da reivindicação de terras. Era preciso também viabilizar a produção. Surgem as Cooperativas de Produção Agrícola e diminui o número de ocupações. Ao lema “ocupar e resistir” é adicionada a palavra “produzir”. “Foi um momento de reflexão”, afirma Medeiros.

A partir daí, foi preparado terreno para a nacionalização do movimento. Mas os rumos tomados desde 1984 não são unanimidade. Zander Navarro, professor do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PGDR/UFGRS) e ex-assessor dos sem-terra, critica a forma de organização e a postura política tomada. Atualmente ele leciona na Universidade de Sussex, na Inglaterra.

“A hierarquização da tomada de decisões pela direção nacional é o maior erro da história do Movimento. Ela foi decidida no segundo semestre de 1985 [quando acontece o I Congresso dos Sem-Terra] e lançou as raízes de uma organização não democrática, onde os processos de decisão interna são comandados por lideranças que não têm nenhuma legitimação, por mais competentes que sejam. Não há a menor transparência dos momentos de deliberação e, desta forma, o MST acaba sendo uma organização que, embora eficaz em termos de resultados, torna-se estranha ao corpo político brasileiro. Enquanto o Brasil se democratizou rapidamente, o MST mantém, por causa da cabeça de alguns líderes, uma visão de país dos anos 70. Se se tornasse mais aberto e, especialmente, se valorizasse a democracia, o movimento seria infinitamente mais forte e seu papel político ainda mais relevante”.

Gilmar Mauro rebate de forma veemente: “Ele atua numa universidade, e eu pergunto: qual é a democracia que existe nas universidades? E onde ele vive, qual é a organização democrática que ajudou a construir? O Zander perdeu o bonde da história e poderia ser um belo assessor da UDR”. Para provar que o MST é uma organização democrática, ele usa sua própria história como exemplo: “Cheguei em 1985, participando de uma ocupação. Interessei-me, participei das discussões, tive oportunidade de estudar como outros milhares de jovens e hoje estou na Coordenação Nacional”. Gilmar destaca ainda o processo de debate interno do movimento, o qual classifica como um dos mais eficientes.

A eficiência e a força política citadas por Navarro puderam ser percebidas nos anos 90, quando o MST ganhou proporções nacionais e muita visibilidade. Apesar de o número de ocupações ter se mantido estável nos primeiros anos daquela década, ele aumentou muito a partir de 1995, primeiro ano do mandato de Fernando Henrique Cardoso, recordista em registro de ocupações. De acordo com dados da CPT e do próprio MST, houve 502 ocupações, que mobilizaram 30 mil famílias, 50% a mais do que no ano anterior. “O governo FHC deixou a reforma agrária fora da agenda, o que levou o movimento a reagir”, explica Leonilde Medeiros. Esse número, apesar da diminuição, manteve-se alto durante toda a década. Em 1996, houve 397 ocupações; em 1998, 446; no ano de 1999; 455; em 2000, 226.

Uma dessas centenas de ocupações teve a participação da agricultora Eliana de Souza, de 24 anos. Há pouco mais de seis anos, ela morava na área rural de Paracambi, município da região metropolitana do Rio de Janeiro. Lá conheceu alguns militantes do MST, que a convidaram a participar de reuniões de base. Aceitou o convite e começou a se envolver com a organização do movimento na região. “Decidi entrar no MST por necessidade. Não tinha emprego e meu companheiro vivia de bicos”, diz.

De lá, com a promessa de que ganharia um pedaço de terra, foi para Barra Mansa, cidade do noroeste fluminense, onde ocuparam a fazenda Primavera. Rapidamente foram despejados pela polícia, mas sem confronto. Ficou um ano acampada na beira da estrada junto a outras famílias, até decidirem entrar na fazenda da Ponte, habitada por apenas um arrendatário, que criava vacas. A área foi indicada pelo Sindicato de Trabalhadores Rurais de Barra Mansa por já ter sido alvo de denúncias de trabalho escravo, ser improdutiva e possuir dívidas com o governo federal.

Eliana conta que a tensão esteve presente durante todo o período em que esteve acampada. “O arrendatário tomou as dores do dono e andava sempre armado. Chamou a polícia, que felizmente não agiu com violência. Foi uma pressão psicológica muito grande”, conta. “Algumas famílias não agüentaram e desistiram, mas fiquei com meu companheiro”, lembra com orgulho.

A ocupação mobilizou 120 famílias, algumas vindas de outros acampamentos para ajudar. No fim, restaram 35 famílias, entre elas a de Eliana, para ocupar aproximadamente 400 hectares à beira do rio Paraíba do Sul. Em 6 de março deste ano, a fazenda, rebatizada de Terra Livre, completa cinco anos. Lá, Eliana e os familiares produzem principalmente mandioca e abóbora, além de criarem gado, que dá leite para seus dois filhos. A venda do excedente da produção consegue garantir 70% do dinheiro necessário para viver. O resto o companheiro consegue com bicos na cidade. “Apesar de todo o medo e situações ruins, acho que valeu a pena. Não é só pela renda, mas também pela auto-estima. Aqui é meu porto seguro”, afirma. Ela espera que seus filhos mantenham a terra que conquistou para “fazer jus a toda luta”.

Formação de militantes

Histórias como a de Eliana são comuns no movimento e demonstram dois aspectos importantes da sua organização: a formação de militantes e a ocupação como forma de luta. Dom Tomás Balduíno, presidente da CPT, acha ambos os aspectos inovadores. “O MST inova ao tornar a posse organizada, maciça e visível, como uma forma de denunciar a iniqüidade do latifúndio, de cobrar a reforma agrária já. Foi a alavanca do que existe de realizado até agora em termos de reforma agrária. E é muito importante também que eles tenham, desde cedo, captado a força do processo educacional. A lição do MST, que serve para toda a sociedade, é de educação, da juventude empolgante e empolgada nos processos educacionais, dentro do método de Paulo Freire. Uma grande massa jovem e todos aprofundando essa metodologia para levar a revolução para o campo”.

Para a educadora Roseli Caldart, que dá aula no Instituto Técnico de Educação e Pesquisa da Reforma Agrária (Iterra), órgão de formação técnica do MST, a educação proporcionada pelo Movimento dos Sem Terra já é uma contribuição para o país. “Temos o mérito de tentar oxigenar a escola tradicional”. Em toda área em que não há escolas públicas, o movimento instala uma. E já conseguiu universalizar o acesso ao ensino da primeira à quarta série, apesar de não conseguir dar educação a todos os jovens. “Refletimos o funil nacional. O gargalo no campo é ainda mais estreito”, afirma Caldart, que lembra a importância das ações de alfabetização de adultos.

Ela explica que não há um modelo de educação próprio do movimento, que adapta algumas linhas gerais à realidade de cada acampamento ou assentamento. Dessas aulas surgem as novas lideranças. Para Zander Navarro, contudo, a educação oferecida não passa de doutrinamento político. “O MST forma militantes que reproduzem o mesmo discurso ‘total’ em qualquer parte do Brasil, incapazes, em sua maioria, de responder a qualquer pergunta que escape ao discurso totalizante com o qual são ensinados a, digamos, entender o mundo”.

Caldart defende a idéia de que as escolas do movimento ajudam a refletir sobre a realidade. “Não vejo as novas lideranças como panfletárias. Elas têm uma visão de que as coisas possuem ligação entre si. A formação ajuda a ver isso, mas a realidade já mostra. Se são radicais no sentido de ir à raiz dos problemas, é positivo”, diz. O projeto educacional dos sem-terra é ambicioso. Até o final deste ano estará funcionando em Guararema (SP) a Escola Nacional Florestan Fernandes, que formará lideranças e profissionais como técnicos agrícolas e educadores para atuarem nos assentamentos. “Nós pretendemos que ela nos ajude na formação de militantes de base, na formação secundária e até na realização de cursos de especialização. Mas, essencialmente, queremos contribuir para a formação política e ideológica dos nossos militantes”, esclarece Gilmar. No entanto, a despeito da grandeza do projeto, ele observa que a concepção do MST sobre escolas ultrapassa os limites físicos. “A educação é um processo permanente. Até mesmo o espaço embaixo de uma árvore pode ser uma boa escola”.

No fim dos 90...

O setor de educação do MST, criado em 1988, é um dos pontos que mais chamam a atenção no movimento. Entretanto os sem-terra ganharam projeção internacional em 1996, com o caso de Eldorado dos Carajás, no Pará. Naquela ocasião, 19 agricultores que participavam da Caminhada pela Reforma Agrária foram mortos por policiais em uma rodovia. Eles são alguns dos mais de 1.500 trabalhadores que, segundo a CPT, já morreram em conflitos relacionados à disputa de terras desde 1980.

A comoção com o episódio foi grande e a reação do governo, rápida. O Ministério Extraordinário de Política Fundiária à época aumentou a quantidade de assentamentos. Os números do Incra mostram que em 1996, no ano em que aconteceu o massacre de Eldorado, foram assentadas 62 mil famílias. Em 1997, 82 mil e, no ano seguinte, 101 mil - um crescimento de 23% de um ano para o outro e de 63% em dois anos. “Carajás foi um fato marcante, que acabou colocando a reforma agrária em debate nacional”, comenta Gilmar. “A partir daí o tema começa a ganhar uma nova dimensão política”.

Em 1997, o movimento marcha rumo a Brasília para pedir reforma agrária. A manifestação é considerada por especialistas como o auge dessa luta. Nessa época o MST aumentou a pressão sobre o governo de outra forma: passou a invadir prédios públicos para pedir reforma agrária e liberação de créditos, entre outras reivindicações. Contudo, em 2001, mesmo ano em que agricultores invadiram a fazenda do então presidente Fernando Henrique Cardoso, em Buritis (MG), o governo reagiu editando a Medida Provisória 2183-56/2001, que proíbe a vistoria de fazendas ocupadas, impossibilitando, assim, sua desapropriação.

A quantidade de ocupações diminui devido à MP, mas o MST continuou ativo. Lentamente ele foi se engajando em outras causas, como o combate aos transgênicos e à Alca - Área de Livre Comércio das Américas. Para Bernando Mançano, a decisão é coerente. “A luta pela terra e pelo desenvolvimento da agricultura familiar não é somente por políticas agrícolas. A luta pela terra é uma luta territorial, que contém todas as dimensões da vida”. Mais uma vez, Zander Navarro aparece como voz dissonante. Para ele, essas questões precisam ser discutidas, mas estão distantes dos interesses dos assentados e acampados. “Isto representa outro erro estratégico infantil das lideranças, que não souberam avaliar a conjuntura e as possibilidades futuras depois da marcha a Brasília. A introdução desses temas mais enfraquece do que fortalece as lutas sociais pela terra. Para a massa de pobres do campo, esses são temas quase metafísicos”.

A réplica do MST vem na ironia de Gilmar Mauro: “O ‘nosso intelectual’ está completamente impregnado pelos preconceitos da autocracia burguesa que conduziu este país. É um preconceito característico da elite brasileira achar que pobre não pode discutir política”, rebate. “Nós estamos formando cidadãos, e estimular o debate de assuntos que não sejam apenas os relacionados à terra é fundamental. É lamentável que um sociólogo de esquerda tenha esse tipo de opinião”.

Rumos

Passados 20 anos do primeiro encontro nacional, o MST ainda parece ser o maior movimento social do país. Segundo seus dados, organiza aproximadamente 500 mil famílias em todo o país - 350 mil assentadas e 150 mil acampadas. Possui diversas cooperativas, algumas com clientes no exterior. Por outro lado, os assentados ainda carecem de melhores condições de produção, como crédito agrícola e assistência técnica.

Sua força política é inegável, mas agora está diante de um grande desafio. O MST sempre foi aliado do Partido dos Trabalhadores, porém o partido chegou ao poder e não tem imposto o ritmo de desapropriações que o movimento gostaria. A promessa no período eleitoral era assentar 60 mil famílias em 2003, mas apenas 26 mil ganharam terras. Outras quatro mil tiveram suas propriedades regularizadas. Os sem-terra afirmam haver uma demanda de cinco milhões de famílias.

Por isso os entrevistados concordam em afirmar que nada está definido. Para Mançano, “a perspectiva é viver entre a esperança e o medo, pois até o momento não temos indicadores de que o governo vai realizar uma política de reforma agrária. O MST não pode parar de ocupar”. Já Navarro acredita que o problema está nas mãos de Lula. “Não há um projeto de governo, mas sim de poder. Como se comportará o MST? Fazendo oposição ferrenha ao próprio campo político?”.

Segundo Gilmar Mauro, a resposta ao desafio é simples e o MST não pretende perder sua autonomia: “Vamos continuar fazendo luta, fazendo ocupações e negociando. Queremos que o governo cumpra o que prometeu”.


Posted by Fotogarrafa at abril 15, 2004 10:17 PM


Comments

o MST tá bravo com o nosso presidente...

Posted by: fernando at abril 16, 2004 11:32 PM

o MST tá bravo com o nosso presidente...

Posted by: fernando at abril 16, 2004 11:32 PM
Posted by fotogarrafa at 08:27 PM

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