outubro 03, 2005

Greve de Fome

Filme negativo cor, Marcelo Min, 200107, Bispo de Barra, Frei Luiz Flávio Cappio
Frei Luiz Flávio Cappio, Bispo de Barra, Rio São Francisco, Barra (BA), jul/2001

Neste 4 de outubro, o Bispo de Barra, o frei Luiz, faz aniversário assim como o próprio rio São Francisco e de novo não temos nada a comemorar... Muita força frei, admiramos muito a tua coragem!
Aqui vai o grito: - Não a transposição das águas do Rio São Francisco!

Carta enviada por Dom Frei Luiz Flavio Cappio, bispo diocesano de Barra (BA) em greve de fome contra a transposição do São Francisco, ao presidente Lula.
Barra, 26 de setembro de 2005

Senhor Presidente
Paz e Bem!
Quem lhe escreve é Dom Frei Luiz Flávio Cappio, OFM, bispo diocesano de Barra, na Bahia.
Tive a oportunidade de conhecê-lo por ocasião da passagem do senhor por Bom Jesus da Lapa, na Caravana da Cidadania pelo São Francisco, em 1994. Isto aconteceu pouco tempo depois que fizemos uma Peregrinação pelo Rio São Francisco, da nascente à foz, com objetivo de conscientizar o povo ribeirinho sobre a importância do rio para a vida de todos e a necessidade de preservá-lo. Fui-lhe apresentado por meu professor de teologia, Frei Leonardo Boff.
Sempre fui seu admirador. Participei ativamente em todas as campanhas eleitorais do PT, alimentando o sonho de ver o povo no poder.
Desde que o Governo Fernando Henrique apresentou a proposta de transposição do Rio São Francisco, fomos críticos acirrados deste projeto. Desde então acentuamos a necessidade urgente de revitalização do rio e de ações que garantam o verdadeiro desenvolvimento para as populações pobres do nordeste: uma política de convivência com o semi-árido, para todos, próximos e distantes do rio.
Esperávamos do senhor um apoio maior em favor da vida do rio e do seu povo. Esperávamos que, diante de tantos e consistentes questionamentos de ordem política, ambiental, econômica e jurídica, o governo revisse sua disposição de levar a cabo este projeto que carece de verdade e de transparência.
Quando cessa o entendimento e a razão, a loucura fala mais alto. Em meu gesto não existe nenhuma atitude anti-Lula neste momento delicado da vida nacional. Pelo contrário. Quem sabe seja uma maneira extrema de ajudá-lo a entender pelo coração aquilo que a razão não alcança.
Tenha certeza, é um profundo testemunho de amor à vida.
Minha vida está em suas mãos.
Receba minha saudação fraterna e amiga,

Dom Frei Luiz Flávio Cappio, OFM

Filme negativo cor, Marcelo Min, 200107, Bispo de Barra, Frei Luiz Flávio Cappio

Dom Luis confirma decisão de permanecer em greve de fome. Na carta enviada ao Presidente da República afirma: “Confirmo minha decisão de permanecer em jejum e oração enquanto não chegar em minhas mãos o documento assinado pelo senhor revogando e arquivando o atual Projeto de Transposição”.

Veja fotos da situação do rio São Francisco: Chamado do Velho Chico

ou aqui: http://www.marcelomin.com.br/mmin/vch.html

Posted by fotogarrafa at 10:40 PM

outubro 02, 2003

Chamado do Velho Chico


Xique-Xique (BA)
Dia 4 de outubro o Velho Chico vai estar fazendo 502 anos de sua descoberta. Em junho e julho de 2001, percorri, juntamente com o Fábio Murakawa, toda a extensão do rio e vou estar publicando aqui no fotogarrafa algumas fotos inéditas da viagem. Era a época do racionamento de energia, da pior seca dos últimos 70 anos e o FHC queria que queria transpor as águas do rio São Francisco para outras regiões de seca. Felizmente, dois meses depois, a idéia foi completamente abandonada. Agora, caracas!, é o Lula quem está querendo fazer a transposição de suas águas, o que será uma tragédia para toda a sua população ribeirinha Então as fotos que estarei publicando aqui é só pra dizer que sou radicalmente contra qualquer iniciativa de transposição, num rio e numa população que já sofrem intensamente com a lógica de produção de energia elétrica e onde não se vê nenhuma
iniciativa de recuperação ambiental de suas margens e do cerrado que é onde nasce o Velho Chico. texto de 2001 www.marcelomin.com.br/mmin/vch.html Para ouvir o grito do bom e Velho Chico basta olhar. Tudo está seco, assoreado e raso. Não há mais peixes e há muito pouco transporte fluvial. Em Xique-Xique na entrada da barragem de Sobradinho, por causa da seca, é comum o encalhe das embarcações, obrigando os passageiros a empurrar o barco. Vale lembrar que Sobradinho já foi o maior lago artificial do mundo com mais de 4.000km²


Há pouca coisa para se comemorar nos 500 anos de descoberta da foz do Rio São Francisco, pelo navegador e explorador italiano Américo Vespúcio, no dia 4 de outubro de 1501. Pelo menos, o polêmico projeto do governo federal que consumiria R$ 3 bilhões para transpor as águas do São Francisco para outras regiões do semi-árido nordestino (e que beneficiariam diretamente alguns poucos políticos espertalhões) foi abandonado. Um grande motivo para se comemorar. O Velho Chico com certeza agradece.


A hidrovia do rio São Francisco começa logo após a represa de Três Marias, na cidade mineira de Pirapora. Mas o rio está assoriado e seco. Em junho de 2001 nenhuma das chatas (embarcação fluvial de carga) fazia o percurso de 1,3mil km entre Pirapora e Juazeiro. Devido ao baixo nível das águas, uma viagem de quase uma semana, descendo o curso do rio, levaria quase um mês ou mais. Além disso, a falta de cheias é a maior reclamação dos pescadores. Com as construções das barragens, a vazão do rio foi regularizada. Até antes da crise energética, 90% da energia consumida no Nordeste era produzida apenas apartir do complexo de hidroelétricas da CHESF instaladas no Velho Chico. Produzir energia é prioridade total. A vazão do rio depende então dos humores dentro dos gabinetes da CHESF e do Governo Federal em se manter os níveis mínimos dos reservatórios. A irrigação, o transporte fluvial, a água para o consumo humano, a pesca, a cultura dos ribeirinhos são relegados a um segundo plano frente a importância estratégica de uma perversa política de produção de energia muito mal planejada.


Ribeirinhos apesar de possuirem água encanada em casa, usam o rio para se banhar, lavar as roupas e panelas e buscar água para beber. Primeiro para se economizar no orçamento do mês, e depois porque em casa a falta de água é constante. Para o frei Luiz Cáppio, Bispo Diocesano da cidade de Barra (BA) há aí um agravante. "A poluição está pouco a pouco envenenendo a população. Devido aos projetos de irrigação do Médio São Francisco e da falta de fiscalização aumentou-se muito o uso do agrotóxico. Não me surpreenderia se a causa deste grande número de crianças com deficiência mental fosse além da subnutrição, a poluição do rio São Francisco."


Bom Jesus da Lapa, BA


Nas peixarias da cidade de Xique-Xique, o tradicional Curimatã passou a ser importado da Argentina. Peixe consumido salgado pelos sertanejos, agora tem 70% da produção importada do país vizinho. A peixaria Costa começou a importar há 6 anos. Depois de salgado, é distribuído em Feira de Santana, Irecê e em algumas cidades de Sergipe. O IBAMA permite a pesca do Curimatã acima dos 40 cm, o que atualmente é raro. Se antes os pescadores saiam de Xique-Xique e se deslocavam apenas
1 km rio adentro, para a pesca do Curimatã, hoje precisam navegar por pelo menos 100km já em pleno Lago de Sobradinho em busca do mesmo pescado.


Os irmãos Melchiades e Moal


Neste acampamento do MST à beira de um braço do Velho Chico, em Canindé do São Francisco (SE), as pessoas passam fome, simplesmente porque aqui não há mais peixes, nem terras para o plantio, nem sementes, nem empregos...


Marine é filha de sem terras e tem apenas um ano e não pára de chorar. Cercada de moscas e toda suja, Marine não pára de chorar. Talvez seja dor, talvez seja fome e Marine continua chorando. Espera sozinha a mãe chegar pois quem cuida dela é a sua irmã Pauliane que tem 5anos e que também espera a mãe chegar. Marine só pára de chorar quando está dormindo mas ela acordou e não vai parar de chorar.

Posted by fotogarrafa at 12:05 AM

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