À uma e meia da manhã desta quarta-feira, com uma névoa encobrindo o centro da cidade e os termômetros marcando 22°C, encontramos cerca de 60 integrantes do Movimento Sem Terra Leste I fazendo uma vigília em frente à Prefeitura. Vindos de bairros como São Mateus, Sapopemba e Guaianazes, eles estavam dispostos a passar a noite ao relento para cobrar o início imediato das obras do mutirão Quilombo dos Palmares, em São Mateus. Portando faixas de protesto, eles se reuniram em círculo, rezaram um Pai Nosso e estenderam lençóis no chão, em frente à prefeitura e ao longo de parte do viaduto do Chá, onde pretendiam passar a noite em vigília contra o descaso com que a atual gestão vem tratando a questão da moradia popular. No caso específico do Quilombo dos Palmares, eles cobram uma posição da Prefeitura em relação ao convênio firmado em abril de 2004, há exatos 730 dias. Assinado na gestão Marta Suplicy, o documento foi engavetado na gestão Serra/Kassab. A justificativa da Prefeitura é que não dá para começar as obras do mutirão enquanto não forem feitos os laudos técnico e ambiental da área e definido o traçado da avenida Jacu-Pêssego. “Na verdade, falta vontade política para resolver o problema”, afirma Valdir Lima Cordeiro, um dos coordenadores do Movimento dos Sem Terra Leste 1. Segundo ele, já foram feitas três reuniões com o secretário municipal de habitação, Orlando Almeida Filho, mas até agora nada foi feito.
texto: Luciana Benatti
A promotora de vendas Ednilde dos Santos, a Nilde, mora na Fazenda da Juta, numa casa construída em sistema de mutirão, resultado de oito anos de luta por moradia. Mas a casa não é dela, e sim de seu irmão. Nilde é apenas a suplente. Agora sua batalha é pela casa própria “não tão distante da capital, do convívio urbano.” Ela sabe do que está falando: além de moradia, reivindica também o seu direito à cidade, ao conhecimento, à convivência. “Moro na periferia, mas não sou periférica.”
Parecia um desfile de carnaval e foi mesmo. O pessoal da Rua da Solidariedade, no Capão Redondo, pegou algumas fantasias emprestada das escolas de samba, e caminhou e sambou pela paz, pela alegria e por Jesus também. Foi legal.

Capão Redondo, 26/03/2006

por Sérgio Vaz
São Paulo é uma cidade no cio. Por isso, transa com todo mundo e em todos os lugares. É bonita porque é feia, e como toda feia que se preza, beija mais gostoso. Que os Vínicius me perdoem, mas feiúra é fundamental.
Do alto do prédio ou na superfície da alvenaria, a cidade dói nos olhos dos inocentes que transitam nas calçadas. De onde eu a vejo, minhas retinas são seletas e de como eu a vejo, as esquinas são espertas.
A cidade de São Paulo, que está no mapa, não é todo daquele tamanho, muita gente já tirou um pedaço que falta na mesa do jantar. Ou levou pro fundo do mar ou depositou em conta corrente, que nada contra a corrente, de quem ama esse lugar.
Essa maçã mordida que a massa não come, constrói o luxo que alimenta o lixo escondido debaixo do tapete. Essa cidade não é minha e não devia ser de ninguém, mas ela existe, e todo ano faz aniversário.
Longe do estupro a céu aberto eu costuro meu poema sobre a torre de babel, que samba o rock triste, deste carnaval de concreto e de garrafas fincadas no chão. O cartão postal do meu coração não despreza o centro, nem esconde a periferia.
São Paulo pra mim é pagode com feijoada nos botecos enfincados nas ladeiras. É samba da vela e samba da hora na segunda feira. É o sarau da Cooperifa no quilombo da piraporinha, onde a poesia nasce das ruas sem asfalto.
É comprar livros nos sebos e ensebar nos bancos da praça. É ler caros amigos e Becos e vielas dentro do ônibus ou na fila de espera. É ser Um da sul, da norte, da leste ou oeste. É participar do favela toma conta, no Itaim paulista. Ou dançar samba de côco no panelafro.
É jogar futsal nas quadras das escolas públicas, quase abandonadas pelo alfabeto. É conspirar tomando cerveja gelada no bar do Zé Batidão. É Carolina de Jesus de Jéferson De, saindo da tela. É as mina de vestidinho e chinelo de dedo no churrasco em cima da laje.
É a rapaziada nos campos da várzea de canela em punho. Ser preto ou branco, mas principalmente verde. É o ensaio da vai-vai e das outras escolas. Ouvir Belchior na voz do ceará. Comer peixe na barraca do Saldanha. É Levar os espinhos na Casa das rosas. É não ouvir cd pirata nem original quando o mesmo for caro. Ser enquadrado somente pelas lentes do Marcelo Min, QSL?
É ser “nóis vai”, mesmo quando a gente não for. É Falar errado, mas agir correto. É encontrar sempre as mesmas pessoas no muro das lamentações. É Empinar pipa nos dias sem vento. É ser mil graus na terra da garoa. São os quatros elementos se juntando a outros elementos.
Enfim São Paulo é isso, mas também tem outros lugares.

Sandra, ajudante de cozinha, 34 anos, mãe de 3 filhos, moradora do Jardim Natal, próximo do Grajaú, ZS, e que trabalha há 3 meses numa das melhores escolas de culinária de São Paulo.
Ato na PUC-SP contra a redução das bolsas, o corte de estudantes bolsistas e o impedimento de matrículas de alunos inadimplentes. Eles também pedem a anistia das parcelas das matrículas para os alunos que vieram de cursinhos populares.






Em janeiro, na época das matrículas e das férias e quando haviam poucos estudantes ainda foi assim que o mesmo representante da reitoria da PUC recebeu os alunos. Clique sobre a foto.


Heliópolis, Zona Sul, novo serviço de coleta de lixo porta-a-porta de favelas e locais de difícil acesso com mão-de-obra local.

Nem precisa dizer a alegria que é não estar mais desempregado.

A maior favela de Sampa Crazy City (com 120.000 pessoas, a maior da América Latina, depois da Rocinha) querendo tornar-se simplesmente um bairro. Com calçadas, ruas, vielas, luz, esgoto, escolas, até boutiques, bares, padarias, telecentro, academia de ginastica, video-locadoras e coleta de lixo, claro!
Com a assinatura dos contratos de concessão dos serviços divisíveis de limpeza urbana, a Prefeitura deu um importante passo no processo de modernização do setor na cidade. Dentre os novos serviços que serão oferecidos no modelo, o primeiro a ser entregue à população é o de coleta porta-a-porta dos resíduos domiciliares em favelas e áreas de difícil acesso. Será realizada uma apresentação do novo serviço amanhã (19), na favela Heliópolis (ver serviço abaixo).
Para que a coleta seja eficiente estão sendo contratados trabalhadores dentro da própria comunidade. Esse critério de contratação é importante porque, além de gerar emprego para a população mais carente, garante que o coletor conheça o local e as condições com as quais irá se defrontar, agilizando seu trabalho.
A coleta em favelas está em fase de implantação, que servirá para determinar a metodologia do serviço nas demais regiões da cidade. Para receber essa primeira fase foram escolhidas duas favelas (uma em cada agrupamento). A favela Heliópolis, no distrito do Sacoman, é uma das maiores da cidade, com cerca de 120 mil moradores em 30 mil unidades habitacionais. Para a coleta em Heliópolis foram contratados 25 coletores. Dois compactêineres foram instalados em pontos distintos.
Na região Noroeste foi escolhida a favela do Jaguaré para acolher o programa neste primeiro momento. Bem menor, com cerca de quatro mil moradias, no Jaguaré foram contratados seis coletores. Além de menor, a favela do Jaguaré é menos urbanizada que a Heliópolis. As condições distintas das duas comunidades escolhidas garantem uma avaliação completa sobre o novo serviço. Como é um serviço inédito, não há uma projeção em relação à quantidade de material que será recolhido. A comunidade está sendo informada sobre o serviço por panfletos explicativos distribuídos pelos próprios coletores.
Investimentos - A concessão garante os investimentos que a área de limpeza pública precisa, como a modernização dos transbordos existentes e instalação de outros novos, implantação de duas usinas de compostagem e dois aterros sanitários, unidades de tratamento de resíduos de saúde e da coleta domiciliar conteinerizada; além de 17 novas centrais de triagem de materiais recicláveis e um programa de educação ambiental do programa Coleta Seletiva Solidária. São investimentos na ordem de R$ 1,1 bi que irão evitar o colapso do setor e garantir o destino correto dos resíduos produzidos em São Paulo. A coleta seletiva porta-a-porta também começa a ser ampliada. Hoje são 45 distritos atendidos. Até meados de 2005 todos os 96 distritos da cidade contarão com a coleta seletiva porta-a-porta.
Os principais investimentos, na ordem de R$ 1,1 bilhão, compreendem:
* Coleta porta-a-porta de todas as favelas e locais de difícil acesso;
* Implantação de equipamentos de coleta em favela;
* Ampliação da coleta diferenciada de resíduos (coleta seletiva porta-a-porta). Com este serviço, a freqüência média na Cidade aumenta de 3 para 4 vezes semanais; expandindo consideravelmente a oferta do serviço de coleta;
* Implantação de Pontos de Entrega Voluntária de material reciclável;
* Implantação da coleta mecanizada de contêineres;
* Implantação de dois novos aterros sanitários;
* Implantação de usina de compostagem junto aos novos aterros (uma para cada agrupamento), com capacidades de tratamento de 1.000 toneladas/dia cada uma;
* Monitoramento, manutenção e vigilância dos dois aterros ativos (Bandeirantes e São João);
* Monitoramento, manutenção e vigilância de aterros desativados (Vila Albertina, Santo Amaro);
* Vigilância de aterros desativados (Sapopemba e São Mateus) até sua transformação em parques;
* Modernização das Estações de Transbordo de Ponte Pequena e Santo Amaro;
* Modernização da Estação de Transbordo Vergueiro até seu encerramento;
* Implantação de duas Novas Estações de transbordo (uma para cada agrupamento);
* Implantação de unidades de tratamento de resíduos de serviços de saúde (uma para cada agrupamento);
* Implantação de 17 Centrais de Triagem de material reciclável (5 no agrupamento noroeste e 12 no agrupamento sudeste), com equipamentos (esteiras, prensas, balanças, bags, EPIs etc.) e veículos de coleta (caminhões);
* Desenvolvimento de tecnologia de redução para 1.000 toneladas/dia em cada agrupamento, com geração de energia.
Algumas imagens que fiz enquanto esperava uma possível manifestação dos perueiros.



Santo Amaro, ZS

Associação Comunitária Despertar - Centro de Formação Profissional para Adolescentes



Jd. Vilas Boas, Cidade Ademar
Posted by Fotogarrafa at maio 27, 2004 06:54 PM
Muito bom este grafite na frente de uma estação de energia elétrica...
Posted by: emarquetti at junho 2, 2004 12:43 PMGente, é muito importante todos nós nos darmos conta que o setor de serviços é um dos poucos caminhos que ainda se revelam promissores para a inclusão social. Pena que o governo, em suas últimas alterações fiscais, tenha penalizado justamente esse setor. Mas vejam: meu barbeiro cobra pouco. R$8,00 o corte de cabelo. Não é um lugar sofisticado. Deve cortar uma base de uns 8 cabelos por dia, 6 dias por semana. Aluguel barato, tevezinha básica (sky!)ligada pro pessoal ver, divide as instalações com o irmão e vejam, ganha bruto 1500 por mês. Digamos que sua parte nos custos mensais sejam por volta de 300. Sobram 1200. Para uma cidade pequena, modesta, do ponto de vista financeiro, é melhor do que dar aula em escola pública. Mas isso já é um outro assunto....

Vítor voltando da escola pela cada vez mais colorida Rua Paraíba. Aliás até 04/06 tem que estar tudo pronto pois vai ter festa. A 3ª Quermesse de Heliópolis.

Seu Francisco Pedrosa, 42, descendo as escadas do Metrô Anhangabaú

Apesar de ser um desnível pequeno, Francisco entra com dificuldade na agência do banco para fazer um saque.
Má a rua paraíba é a nossa versão do "el Caminito" de Buenos Aires, a-do-rei!
bjs
Má
Mim, me chama para essa quermese em Heliopolis. Se vc for fotografar e der, eu quero ir tb.
[]s
Valdecir
faaala Min,
pô! RGB total as casas no Heliópolis...rs
muito bom
abraço
Aí, maninho, vc liga os manos do movimento Rap? Tava vendo um site de rap e ví o seu site...eu sou leitora do gim tones, e achei legal!
É isso aí!
Oi, Min, comprei, depois de um ano, a célula fotoelétrica que você me mostrou. É muito divertido trabalhar com ela. Ah, os primeiros resultados podem ser vistos numa recente viagem que o Kalinesia fez a um reino muito distante.... E por falar em reino, tudo certo para a exposição agora em Julho? Um abraço, Ruben.

08/05/2004, Heliópolis, São Paulo
vixe... complicado o gato, hein?
sobre o larry, sem dúvida a pior cagada do governo até agora. aiai... só uma explicação plausível: falta de experiência... só pode! total incompetência!
Caracas! Bem, deixa ver, vamos fazer um cálculo aproximado da carga, em função da sessão transversal do condutor, com um coeficiente de condutibilidade de lambda ponto zero três, igual à 39 televisões, 8 chuveiros ligados, uma torradeira elétrica e 8 micro ondas simultâneos... êita, vai queimar a tela do meu micro.... Min, você tem certeza de que não foi faísca do gato que riscou o seu ldc? Em tempo: não deixe a coisa barata com o Tanaka, que de barato ele não tem nada. Super abraço, Ru
Bem, já que estou com a digital de volta, vamos usar né?

O arquiteto Rui Ohtake e o senador Alouizio Mercadante participam de um projeto para reurbanização da favela de Heliópolis, onde vivem mais de 100.000 pessoas

Rui Ohtake nas ruas de Heliópolis

"(...)a paz está nas crianças(...)"

um oizinho para o meu fotografo predileto!
mande noticias!
ahhh ruben, sem muito alarde tá... parabéns pelo projetor!
Posted by: min at maio 11, 2004 12:27 AMruben, incrível como este pessoal mesmo morando em casas sem acabamento nenhum crescem sabendo tudo de elétrica, hidráulica, cimentos e azulejos. Desde crianças tão lá aprendendo a construir uma casa. Eu fiz uma foto de um gato bem louco lá em heliópolis mas fiz em cromo. depois eu posto aqui, ok? era um cara pálida dando um jeitinho no emaranhado
Posted by: min at maio 11, 2004 12:26 AMEi, Min, as crianças estão aprendendo a fazer "gato"? :-) Estive em Porto Seguro há 2 anos. Conheci a Eduarda, uma italiana memorável. 80 anos de vida, magrinha, súper em forma, ela é uma espécie de madrinha da comunidade. Vai todo dia à praia (na verdade, ela mora em Santo André, que fica depois de Cabrália...). Ela contou que um dia a empresa elétrica da Bahia veio retirar os "gatos" que os índios fizeram ao lado de uma aldeia. O técnico subiu na escada e pouco depois começou a sentir tudo balançando: poste, escada, fios... Estava todo cercado de índios. Muitos tinham facão na mão. O técnico desceu. Os "gatos" ficaram. Uma abração enorme, Min. Ah... Miau!
Posted by: Ruben at maio 9, 2004 01:42 PM
Neste sábado teve Zagati em Pirituba, cinema e pesagem para as crianças do Santo Elias!




08/02/2004, esq. Maria Helena Ribeiro dos Santos, 42, dona de casa, 5 filhos e a irmã gêmea, Madalena Ribeiro dos Santos, dona de casa, 9 filhos, esposa de Zagati, e quem segura as pontas com o sonho do marido, ex-catador de papel, de dar cultura para o povo da periferia
Madalena e Maria Helena
caracas, até a igrejona não tem acabamento...
Jardim Record, bairro Sítio das Madres, Taboão da Serra, quem quiser achar o Zagati é só ligar pra ele: (011) 4685-3589
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A pipoca não pode faltar, nunca, e é de graça, assim como as sessões, todos os domingos, lá pelas 19:30
O texto a seguir é da Cristina Aguilera e recebi num dos comments.
Oi pessoal!!! Fico feliz em saber que o Zagati desperta tanto carinho das pessoas. Eu sou uma delas e me sinto honrada em ter divulgado essa história pela primeira vez, que hoje não está só no Brasil, girou o mundo. Sou jornalista e trabalho em Taboão da Serra.
Em 2000, Zagati apareceu na Secretaria de Cultura da cidade pedindo para passar uns filmes nas escolas municipais. Por preconceito, quase que a história de Zagati não seria conhecida do grande público, pois o segurança da Secretaria, vendo a simplicidade daquele homem, não queria deixar que ele subisse para falar com os produtores cuturais. Por uma daquelas sortes do destino,o produtor Luiz Domingues desceu, conheceu o catador de sucatas cinéfilo e levou sua história até ao Secretário de Educação e Cultura Antonio Carlos Fenólio que resolveu fazer a I Mostra de Cinema no teatro da Cidade, o Cemur. Foi ai que eu entrei, conheci essa pessoa maravilhosa e divulguei sua história para a grande imprensa.
O primeiro programa a falar sobre o Zagati, foi o SP Digital, minha amiga Patricia Gomes cobriu a Mostra de Cinema da Cidade e depois fez uma reportagem com ele. A seguir eu mandei essa história para outra amiga, a Bárbara Souza do Jornal Estado de São Paulo. Assim que a matéria saiu no Estadão,por duas vezes, vários outros veículos de comunicação vieram conhecer essa figura tão querida. Hoje, o Zagati montou com suas próprias mãos o seu cineminha e possui dois documentários sobre sua vida: O Mini Cine Tupi e o Zagati. Sua vida continua sendo simples, mas cada um que conhece sua história aprende uma lição de vida.
Eu estou montando uma página na internet sobre ele, quem se interessar pode entrar na http://www.taboaodaserra.jex.com.br/. Gostaria muito de colocar essa bonita matéria da Adriana Bosco nessa página e peço seu contato.
Um grande abraço,
Jornalista Cristina Aguilera
aguileracris@ig.com.br
Cinema para a periferia é a luta de Zagati
Uma colaboração muito especial da Adriana Bosco que me enviou seu texto sobre o Zagatti.
O mini-cine Tupi, a razão de estar aqui
Adriana Bosco, fev/2001
Vi na tevê a história de um homem, um catador de papéis,
que construiu com pedaços de lençol, cadeiras velhas achadas na
rua, recortes de revistas e um velho projetor, um pequeno cinema, o
mini-cine Tupi, na garagem de sua casa. Sua paixão pelo cinema
(ele dizia "a primeira vez que eu entrei em um cinema eu estava no colo
da minha irmã. Vi aquela tela branca grande e aquela luz que saia e
refletia nela e me encantei") rende, todos os domingos, uma sessão
gratuita para os moradores do bairro em que mora. Tem até sorteio de
brindes (ele dizia: "nós não temos dinheiro, mas vamos na loja de R$1,99
e compramos assim umas três coisinhas, distribuímos as senhas e
sorteamos no fim da sessão"). Lá não tem Cinemark. O arquivo de
longas não é farto, mas soma quinze filmes, que são rebobinados numa
enroladora inventada e construída pelo homem com LP´s antigos e outros
pedaços de lixo. Achei bonito aquele homem sonhando apesar da
condição. Depois percebi que ele não sonhava apesar da condição... ele
agia DE DENTRO da condição, escolhendo o próprio sonho, que faz sonhar
outros homens grandes e pequenos em volta dele. Me lembrou o
mais amargo Charles Bukowsky, que em um poema dizia qualquer coisa como:
se você está esperando as condições ideais para criar, como luz e tempo
e ar e espaço, você não vai criar nunca, por que quando alguém precisa
criar, cria com cinco filhos chorando, de madrugada, depois do trabalho
na fábrica, mas cria. E ele diz também que luz e tempo e ar e espaço só
prolongam a nossa vida para que a gente invente novas desculpas para não
se mexer. Como este país em que vivemos, que espera eternamente
qualquer coisa que não irá acontecer, o dinheiro que não tem, a vida que
não leva, a violência que um dia há de ser controlada (por quem, meu
Deus?). Por que talvez estejamos errados ao acreditar numa
essência que não existe, numa natureza humana, dependente de certas
condições materiais e espirituais que nunca virão. Nós todos temos
desculpas inventadas, e nossa ação está condicionada a coisas que um dia
acontecerão, ou a alguma recompensa ou punição que esperamos por cada
passo dado. A recompensa não vêm, e nós todos, de todas as
classes, de todas as ideologias, aqui parados. A recompensa não
virá. Pelo menos não esta recompensa que a gente espera, este céu na
terra concebido num mundo de descolamento e reificação e crueldade.
A única recompensa possível pelas escolhas que fazemos sempre
(mesmo quando achamos que não estamos a escolher...) e que nos impele à
ação (mesmo quando achamos que não estamos a agir, pois deixar de fazer
também é movimento em direção a outra coisa) é a liberdade que consiste
na liberdade minha em compasso com a liberdade desses outros que
compartilham o sonho (tantas vezes visto como pesadelo) da condição
humana. A única recompensa é a esperança de uma moral construída
na solitária perspectiva da total responsabilidade que um homem tem por
cada caminho que toma em cada tempo de sua vida. A total
responsabilidade de cada homem, desprovida de culpa e desculpa,
desprovida de bengalas em que se apoiar, desprovida de determinismos.
Por que não é uma questão de haver fatos, condições econômicas, sociais,
políticas, psíquicas IDEAIS. A gente precisa ir com o que tem. Por que é
de dentro da fornalha que podemos agir, e não apesar do inferno, ou
contra o inferno, à espera das condições ideais da revolução ou coisa
que o valha. Me cansei de projetos tão grandes que não se
concretizam, e há sempre alguém para dizer "mas também, nessas
condições...". Nossos projetos, individuais, mas também coletivos, a
medida que a responsabilidade e a liberdade de cada um de nós está
atrelada à do outro, tem que ser vivos, dentro deste terrível e tão
lindo buraco de termos que arcar, sozinhos, com todas as nossas escolhas
e com a nossa existência (que não é precedida de qualquer essência),
nesse mesmo país tão quente que precisa tanto tanto escapar da barbárie,
e que, tão sem esperança, se recosta no barranco, tranca as portas e
bebe pra esquecer a dor da vida. Aqui, neste lugar no tempo e no
espaço, nos resta abandonar qualquer espera e condição para as
tentativas, por que se sequer procuramos por elas, o vazio é tão grande
que só o eco é suficiente para matar a gente de medo. Nos resta
agir dentro de uma moral de responsabilidade e liberdade. E quem sabe
construir mais uns tantos mini-cines Tupi em tantas garagens de tantos
bairros, para nos lembrar a toda hora o porque de estarmos aqui,
justamente aqui.
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Noite de sarau de poesia, lotado, em pleno bar do Zé Batidão no Jardim Guarujá, Jd São Luís, ZS. É o Coperifa, iniciativa e revolução do escritor Sérgio Vaz, "e se não for revolução, a gente tira o R e temos evolução!". Aqui a informação corre livre e solta e em forma de poesia! Muito, mas muito subversivo, linda reunião dos poetas da periferia!
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Jardim Leme, Campo Limpo (ZS)
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Jardim Ângela (ZS)
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Z´África junto do Projeto Bartolomeu de Teatro brincando e tocando para as crianças que vivem embaixo do Minhocão!
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Ontem teve paredão no Jardim Leme, pra lá do Campo Limpo! Estavamos conversando na esquina da casa do Buia e de três viaturas do Tático Móvel sairam uns 8 policiais armados de metralhadoras. Eu estava de costas pra rua, atrás de um poste e qdo os soldados me viram tomaram um susto, cara de o que este coréia tá fazendo aqui? Todo mundo pra parede, cala boca, olha pra frente, revólver e metralhadoras em punho, ô mina já falei pra parede, pra parede, cala boca, abre a perna, revista, já assinou b.o., já assinou b.o., abre o carro, documento, nome do teu pai... Já levei outras gerais na vida, mas é foda quando isso acontece parado na esquina, sem estar fazendo absolutamente nada de errado, junto com o pessoal de um dos principais grupos de RAP de São Paulo, o Z´África Brasil. É uma merda viver num país racista!!! No momento da geral eu estava sem a minha câmara, ainda bem (um dia eu explico) e assim que me devolveram o documento e me fizeram repetir que não havia sofrido nenhum tipo de constrangimento, corri pro carro, e ainda consegui fazer algumas fotos em pb do desenlace.
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Dia das Crianças e aniversário do time local, a Ponte Preta, com distribuição de 5.000 brinquedos e cachorros-quentes em festa inédita para as crianças do Bairro Leme, Silvio Sampaio e Suinã, em Taboão da Serra. A festa foi organizada pela comunidade com apoio da Sociedade Amigos do Bairro, do Z´África Brasil, dos moradores e dos torcedores e jogadores. O prefeito de Taboão quis proibir a festa, qdo a comunidade foi buscar apoio na prefeitura. Mas no final ele ainda apareceu por lá na maior cara de pau, querendo subir no palco e falar.
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Hugo Leão, o Batatinha, 14 e Rodrigo Martins, o Paçoquinha, 19











Ontem rodei, rodei e rodei por Sampa Crazy City.
Primeiro logo cedo no Itaim Paulista (ZL), numa visita a uma escola estadual, depois fui correndo pro Capão Redondo (ZS) buscar o escritor Ferréz e levá-lo até a laje do Helião do RZO, em Pirituba (ZO), para uma conversa, sob um temporal, sobre políticas públicas, cultura, vida, que o Douglas Kim e eu estamos agitando e depois da chuva, voltamos pro Capão. Ainda fui pra Pinheiros beber umas cervejas, dei um rolê pelo centrão e voltei pra casa com a sensação de estar fazendo história
Visita a E.E.Professora Maria Vera Lombardi Siqueira, numa matéria sobre Jogos Panamericanos para o suplemento Folha Educação. Ao final tive uma surpresa quando a professora de educação física, Cláudia, quis mostrar o blog da escola. Um blog de fotografia!!! Uau!!!
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A informação e a história sendo produzidas pelo povo!
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ei, vamos ajudar a professora Cláudia a incrementar o blog da escola: http://www.eemariavera.blogger.com.br/
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Tavam lá os escritores Alessandro Buzo, Ferréz, os rappers Helião e Fiel que veio do rio e é da Cidade de Deus, em Jacarepaguá, o vereador Carlos Gianazzi e a banca que foi aparecendo lá na laje-estúdio onde o RZO gravou o seu álbum e que vendeu mais de 200.000 cópias e que o temporal quase que inundou tudo! Na pauta, a voz da periferia sobre a educação, a opressão, a política, a mídia, a concentração de renda, a atitude de vida, a cultura e, claro, sobre o temporal que tava foda lá em Pirituba!
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Entrevista que o Douglas Kim e eu agitamos para a Trip mas que por uma sacanagem da revista acabou não sendo publicada e pior, roubaram a nossa idéia. Enfim, tá aqui a conversa na integra:
Mesa Redonda
Laje Helião - Pirituba
09/10/2003
Buzo - escritor
Alessandro Buzo - 1972
Mora no Itaim Paulista, filho de Antonio Calixto de Souza,
motorista, e Luzia Buzo, funcionária pública
Trabalhou como office boy e representante comercial
Autor de “O Trem - baseado em fatos reais” e "Suburbano Convicto" e responsável pelo “Boletim do Kaos”
Ferréz - escritor
Reginaldo Ferreira da Silva -1975
Mora no Capão Redondo, filho de Maria Luiza, empregada
doméstica, e Raimundo, motorista.
Trabalhou como balconista de lanchonete e arquivista
Autor de “Fortaleza da Desilusão”, “Capão Pecado” e “Manual
Prático do Ódio”
Fiell - músico
Mora em Cidade de Deus
Fundador do Movimento Enraizados, lançou o CD “Mundo Cão”
Giannazi - vereador (PT)
Carlos Giannazi - 1961
Mora no Jardim Primavera.
Formado em Pedagogia e História, com mestrado em Educação
pela USP, mas já trabalhou como auxiliar de escritório e
bancário.
Presidiu a CPI da Educação e é presidente da ONG Cidadania Já
Helião - músico
Helio Barbosa dos Santos - 1969
Mora em Pirituba, filho de Dona Lurdinha, empregada
doméstica, e Seu Amadeo, mecânico.
Trabalhou como serralheiro
Líder do RZO, lançou os CDs “Todos são Manos” e “Evolução é
uma coisa”
LEIS DE INCENTIVO/POLÍTICA CULTURAIS
Giannazi
Essas leis de cultura, só dão acesso aos mesmos grupos.
Ferréz
O pessoal do cinema pega milhões, eles têm a técnica. Eles
pegam um milhão para fazer o filme e a gente não consegue
dinheiro para fazer um CD. E você vê que todo mundo chega de
carrão. Eu falei estes dias numa palestra: se eles querem
fazer um documentário do amendoim torrado da Malásia, eles
conseguem dinheiro. Nós queremos falar de política pública e
sociedade e não conseguimos.
Giannazi
Não pega mil reais. Essas leis são furadas. Agora, queremos
criar uma editora municipal, uma gravadora municipal e
priorizar quem está produzindo na periferia. Tem que ter
atestado de pobreza, não tem que ter projeto.
Desburocratizar, facilitar o acesso, como a Casa Jorge Amado,
na Bahia.
Ferréz
E não é nada dado porque este dinheiro é da gente.
Giannazi
Dinheiro público! Tem que pressionar, senão não sai nada. Não
só a prefeitura, mas o governo estadual e o federal devem
organizar políticas de cultura pra essa área, canalizar,
priorizar os recursos públicos. Você vê as estatais, elas
investem pesadamente em cultura, só que é uma cultura
totalmente elitista, eles não investem no movimento, genuíno,
da periferia. Então, acho que tem que cobrar do poder público
uma ação como essa, uma priorização do dinheiro que existe no
orçamento municipal, estadual e federal, facilitando o acesso.
Ferréz
Aí tem outra questão que é pior. Como a gente vai ter licença
para falar mal do sistema se a gente vai editar livros pelo
próprio sistema? Como vamos nos sentir à vontade fazendo uma
música sendo que ela vai sair por uma empresa estatal?
Giannazi
Mas tem um porém, a estatal é pública, o dinheiro é nosso, é
nosso imposto, não é um favor nenhum. O Chico Buarque de
Holanda logo que terminou a ditadura militar, teve um
programa na Rede Globo em 86, que chamava Chico e Caetano. O
Chico Buarque era o maior inimigo da rede Globo, e vice-
versa. Ele foi contratado para fazer um programa mensal de
música brasileira e aceitou.
“Mas Chico, você meteu o pau na Globo todo este tempo, uma
empresa que te perseguiu a vida toda, censurou suas músicas,
e agora...”
“O negócio é o seguinte, a rede Globo é uma concessão
pública, não é do Roberto Marinho. Agora o Brasil está se
redemocratizando, e como é uma concessão pública, eu vou
entrar, sim, dane-se o Roberto Marinho”
Ferréz
É a mesma elite que sempre conseguiu dinheiro. Na verdade,
nós temos que apresentar os projetos já com os
patrocinadores. Você telefona “Tio, você que é dono da
Claybon, patrocina o meu projeto, você tio, dono da VASP,
patrocina o meu projeto.”
A gente vai pedir pra quem, para o dono da mercearia?
Giannazi
A questão é essa, não é só fazer o projeto, você aprende e
faz. A questão é que você tem que conseguir o patrocinador e
depois a aprovação da secretaria, mas o mais difícil é o
patrocinador. Quem vai patrocinar o livro dele, quem tem
interesse comercial? Mas vamos imaginar que ele caia nas
graças da Petrobrás, que tem milhões, ótimo.
Ferréz
Mas sabe o que é engraçado? A gente já fez trabalho pra
Petrobrás, mas através de outros. Eles chamaram a gente,
fizemos de graça o documentário e ele foi vendido para TV
Cultura, GNT e todos os canais. A gente acaba sendo o produto.
Giannazi
Operários.
Ferréz
Mas, ao contrário do rap americano, nós somos o instrumento
de trabalho, e não os administradores. Você vê o seu nome em
todo lugar, a fama, e aí vai pegar as medalhas e enfiar na
pele porque não tem nem jaqueta?
PERIFERIA
Helião
A maior imagem que eu tenho da periferia é a desigualdade, a
desigualdade social. Uns com muito, outros com nada.
Fiell
Lá no Rio se morre alguém na zona sul, rapidinho é jornal,
etc. Se morrem dez na favela, ficam lá esquecidos.
Desigualdade, contraste social.
Ferréz
A mídia sempre joga a visão pelo lado da violência, se
jogasse desde o começo pelo lado da criatividade, a periferia
iria ser lembrada hoje como celeiro de artistas, mas o olhar
da mídia é sempre um. Em todas as comunidades existem eventos
beneficentes, mas ninguém vem filmar, tirar fotos. É sempre
em cima da violência, sendo que a maior violência é a mãe da
gente trabalhar no centro, voltar com 50 anos para a
periferia com as pernas cheio de varizes e a gente ter que
cuidar delas depois.
Giannazi
A periferia é um paradoxo. A desigualdade, a má distribuição
de renda e a miséria, acabam gerando uma grande violência
social. A violência da periferia é a violência de toda a
sociedade, é a violência da concentração de renda. Ao mesmo
tempo, é uma contradição você ter uma grande produção
cultural muito rica, um patrimônio cultural e de dignidade. O
poder público, na verdade, governa para os ricos. Acho que
quando a periferia se organizar um pouco mais, ela vai
conseguir trazer os recursos públicos para ela. O hip hop
consegue ter mais força neste momento histórico, ele é de
esquerda, na minha opinião, ele contesta o sistema, a
desigualdade social. O poder público só vai olhar para a
periferia quando o poder público for pressionado pela mesma.
Ferréz
A cobrança é feita do lado errado. Tinha que estar aqui o
Caetano Veloso, o Roberto Carlos, o Paulo Coelho, o pessoal
que gira milhões de discos, milhões de livros. Por que sempre
a cobrança “O que vocês produzem?” Nós somos o tema, nós não
produzimos o tema. O Helião é o tema, ele não canta a favela,
ele é a favela. O Buzo é a periferia, eu sou a periferia,
tudo que a gente for produzir é periferia
CENTRO X PERIFERIA
Rodrigo
Todo mundo quer dar uma vida melhor pro seus filhos. A gente
está batalhando para um futuro melhor para quem está vindo.
Sair da periferia pode ser, como pode não ser uma boa. É um
lugar que traz muito sofrimento.
Buzo
Depende da atitude. Uma coisa é você mudar o seu local de
moradia. morar lá no centro e nunca mais vai voltar na sua
quebrada, Eu não sei se vou morar sempre no Itaim. Se eu não
for morar no Itaim, vou ser o mesmo cara de sempre.
Fiell
Eu moro lá na Cidade de Deus, tem hora de entrar, De repente
você vai entrar de madrugada e bate de frente com uma
quadrilha inimiga, é sinistro, vai morrer. É difícil.
Ferréz
A gente acredita que pode mudar a comunidade, melhorar, então
nós não vamos mudar de comunidade. E não vou sair porque está
no meu braço, na minha veia, no meu sangue, na minha família
e em todos amigos meus. É um bagulho de karma já, o meu karma
é ficar. É o preço que cada quer pagar ou não. Se o cara que
fala pra mim que está mudando porque tem medo que o filho
dele vá morrer, firmeza, quem sou eu pra julgar? Só que eu
ainda quero criar o meu filho dentro dos moldes que eu fui
criado. Porque eu acho que o playboy, o cara que foi criado
em um lugar melhor, não tem o senso que eu tenho, o que eu
aprendi na rua. Quero ensinar o meu filho na mesma direção.
Heliao
O Sabotage ia na Globo e o caramba e ninguém falava nada
Ferréz
O Sabotage passou o que nós estamos passando, ficava em hotel
cinco estrelas e depois voltava pra favela.
Fiell
Se fosse para sair da favela o (MV) Bill teria saído. Ele foi
confundido com traficante, ficou meia hora andando uma arma
nas costas e ele ainda mora lá, na favela.
Buzo
Nós somos de um lugar distante que talvez você nunca tenha
vontade de conhecer, mas é aqui que nós nos sentimos bem. A
gente se sente bem na nossa quebrada, não tem essa
necessidade de sair daqui.
Giannazi
É sempre um risco sair, vai depender do compromisso, da
convicção, do caráter, da personalidade, tem gente que
consegue sair e manter a mesma linha ideológica, compromisso
com a arte que ele produzia. Não é fácil, a tendência não é
essa, porque você vai para uma vida melhor, começa a ter
outros interesses.
ARTISTAS E AGENTES SOCIAIS
Ferréz
Eu acredito que o exemplo de vida das pessoas que estão aqui
é muito mais forte que o trabalho. Por outro lado, se
deixarmos, a mídia nos transforma em profetas da nova era,
falando contra isso e aquilo, isso é moralismo. E nós somos
pecadores: um fuma, outro bebe, outro transa, outro mata,
outro rouba também, entendeu?
Giannazi
Todos são artistas. Só o fato de não estarem reproduzindo
essa cultura alienante, industrializada, comercial, isso já é
revolucionário. É a realidade da ampla maioria, isso já é uma
grande contribuição. O Ferréz vendeu 30.000 livros, ele já
pulou o cerco, o Helião vendeu 200.000 discos. Isso mexe com
as pessoas, mexe com as estruturas do sistema.
Ferréz
Hoje, os músicos de rap vendem mais que os cantores de MPB,
porque o trabalho tem essência, não é só pelo discurso, pela
ideologia, mas acima disso o trabalho tem essência.
Giannazi
Os tropicalistas diziam “vamos entrar em todas as estruturas
e sair de todas elas”, para detonar por dentro. Tem ocupar
todos os espaços para mostrar a arte de cada um.
Ferréz
A mídia só está mostrando porque gira dinheiro e gera
público. Ninguém é bonzinho.
LULA E O GOVERNO
Buzo
Temos que continuar a ter esperança de que alguém vai olhar
para gente algum dia. Se não for o Lula, vai ser quem, quem
representa mais o povo do que o Lula? Eu não vejo ninguém. Se
chegar ao ponto do povo perder a esperança de vez em
política, eu vou pra onde, vou pra revolução armada?
Fiell
Exterminar os pobres...
Rodrigo
Eu não acredito numa melhora com essa forma de governo de
quatro anos, acho que a melhora viria com um governo que
ficasse por muitos anos. Ou mudar todo este sistema político.
O Lula está lá com esse sistema mas não é a voz, pode até ter
boa intenção, mas é apenas o piloto da nave.
Buzo
Se o Serra tivesse vencido a eleição, seria a continuação dos
8 anos do FHC, iam ser 12 anos. Se o Geraldo Alckmin não
tivesse ganhado, ele não teria tido a oportunidade de
continuar o que ele não está fazendo. A Marta fez a taxa do
lixo, ela ficou estigmatizada na periferia, a Martaxa, mas
ela fez 17 CEUS na periferia.
Ferréz
Quer saber, é tudo igual. O projeto do Alckmin é chamativo e
grande, o projeto da Marta é chamativo e grande, tudo igual.
O projeto do Lula é propaganda, é banner, é site, e é pouca
distribuição de alimento. Se eu não batalhar pela comida em
casa, não tem. O sistema já está corrompido, mudá-lo é utopia
nossa, vão ser sempre as mesmas cabeças lá em cima, a
manipulação é a mesma.Agora, só não acorda quem não quer,
tudo é jogo de marketing. Dezessete CEUS dariam para fazer
cem escolas. Quando o helicóptero filmar, tem que filmar a
piscina, tem que se fazer um projeto amplo, bonito, chamado
CEU porque a gente está vivendo no inferno. Ilusão, ilusão.
Heliao
Eu sempre fui petista. Desde crianças, minha tia já foi
vereadora. Tenho maior amor pelo partido, fazia estrela,
pintava bandeira, trabalhava no tempo de eleição, só que
estou achando que o Lula está com muita conversa já. Quando
ele não era presidente ele era fulminante.
Giannazi
O Lula, não podemos esquecer, tem a mesma origem de classe
que nós, veio da periferia do Brasil, do Nordeste, da
periferia do ABC. Metalúrgico, foi a primeira vez na história
do Brasil que uma pessoa que vem das camadas populares assume
a presidência do Brasil. Porém, o Lula é pressionado o tempo
todo pelas elites econômicas, pelos bancos internacionais,
pelos latifundiários, ele não consegue governar do jeito que
ele quer. Ele precisa do apoio popular também. O fato de
chegar na presidência da república não significa que a gente
chegou no poder. Mas ele fica refém também de algumas
situações. Os outros são mais fortes, as elites são
poderosas, tem o poder econômico, o PT não tem o poder
econômico. Até para ganhar ele teve que fazer alianças com o
PL, com vários partidos de direita que representam todas as
forças contra a mudança.
Ferréz
Nosso povo tem complexo de patrão. É hereditário. Se votava
no Quércia, típico patrão de todo mundo, votava no Collor
porque é o típico patrão.
Giannazi
Trabalhador não vota em trabalhador
Ferréz
Uma vez no Jardim Ângela disse para o Lula
“Porra, mano, que carrão!”
“Se pobre votasse em pobre eu andava de Brasília amarela”
TERRA
Buzo
Você vê o MST na televisão e as próprias pessoas pobres metem
o pau nos caras: “são um bando de vagabundos” Por quê? Porque
são manipulados a pensar assim. Onde estão os líderes do
movimento MST, o José Rainha e a mulher dele? Estão presos. E
o que o povo acha disso? Acha bom, baderneiro está preso, vai
acabar aquela porcaria do MST. E ele mora na favela e está
falando isso. Ele está atirando contra ele mesmo.
Ferréz
Quando eu fui pra Pelotas, eu vi lá o movimento dos
trabalhadores sem moradia, trabalhadores passando
necessidade, não tinham onde morar e não tinham emprego. Em
Aracaju você vê um movimento sem terra também, aí você vem
aqui no centro e encontra o movimento dos sem teto. O Brasil
está cheio de pequenos movimentos borbulhantes que estão se
unindo e formando uma grande massa. Acho que é legítimo e a
atuação política vêm disso. Na Bahia você vê o cara morando
em casa feita de saco de lixo, você vai para o sul é a mesma
coisa, moleque tomando chimarrão o dia inteiro porque não tem
o que comer dentro da barraca e todos esses grupos ainda têm
biblioteca no centro das comunidades! Acho que o movimento é
legítimo e acho que tem que ter respeito porque os jornais de
direita, as revistas de direita vão jogar contra isto. Isso
já é um fato.
Helião
Eu acho que tem muita gente sem ter onde morar.Outro dia,
peguei um ônibus pro Rio Grande do Sul, você passa, anda mais
de um dia, você olha pros dois lados e vê a maior imensidão,
você não vê uma casa, não vê nada, e você vê o pessoal se
pendurando nos morros. E aquelas terras lá têm donos, são os
políticos, os empresários, a igreja. Quer dizer, tudo se
resume na desigualdade e gera violência. Nossos amigos se
armam, vão assaltar banco, matar os outros. É sério.
Fiell
Eu sou a favor, se eu não tivesse onde morar eu ia invadir um
terreno, com certeza.
Ferréz
Você mora onde?
Fiell
Cidade de Deus.
Ferréz
E com certeza um terreno que já foi um terreno invadido.
Todos somos sem terra. Nós descendemos do mesmo escravo que
foi solto e não deram informação para ele plantar, para ter
propriedade. Não deram a carta de alforria junto com a
escritura de um lugar, apenas jogaram na rua e nós somos a
descendência. Somos descendentes da ralé de antigamente.
Rodrigo
Quando disseram que acabou aquela palhaçada de escravidão
jogaram o negro na rua. Se o bisavô do playboy deixou terras,
foi o meu bisavô que trabalhou para ele deixar. Acho que já
deveria vir a reparação, o sistema colocou na nossa cabeça
que a gente não presta, que somos vagabundos, não temos terra
porque não queremos, só gostamos de invadir a propriedade dos
outros, roubar, e é esta imagem que mídia tenta passar dos
movimentos sem terra, que são movimentos sérios, organizados.
Giannazi
Acho que para entender o MST é preciso entender o Brasil. O
Brasil continua organizado em capitanias hereditárias, a
família Sarney é fruto de 500 anos, a família ACM na Bahia, e
assim por diante. Uma outra cosia que explica a nossa
realidade que é a questão dos escravos. O Brasil foi o último
país do mundo a acabar com a escravidão e o negro saiu da
senzala e foi para a favela. Ele não foi indenizado. O MST é
produto destas lutas todas, no passado nós tivemos
resistência também, a Balaiada, a Sabinada, o Quilombo dos
Palmares, Farroupilha, vários movimentos populares se
organizaram. O MST quando está invadindo, na verdade, está
ocupando terras que são nossas. Os grandes latifundiários
também invadiram essas terras, não são deles, muitas delas
são terras devolutas do Estado, que eles foram se
apropriando, falsificando documentos. O MST quando ocupa,
ocupa prioritariamente estas terras, eles fazem um mapeamento
de terra devoluta que foi apropriada pelo latifundiário. É um
movimento legítimo, tem que ocupar mesmo, só assim que vai
ter reforma agrária no Brasil. Tem que ocupar os prédios
públicos ociosos, particulares, eu defendo, acho totalmente
legítimo, acho que só assim vamos ter mudança no país. O MST
é o movimento mais revolucionário dos últimos tempos, anos 80
para cá, junto com o movimento hip hop, são os dois
movimentos que balançam o Brasil. Vamos fazer esta mudança, o
resto é conversa fiada.
INFORMAÇÃO
Fiell
Quando mostram a favela na TV só mostram a desgraça, nunca
mostram alguém os irmãos. No hip hop, eu sou a prova viva, se
não fosse o rap, eu não estava aqui hoje. Era mais um na
estatística. Outra prova viva: eu tirei um irmão que era
soldado do morro, dei uma casa para ele morar lá, a gente
alugou, dei trabalho. E se não fosse o rap?.
Giannazi
O hip hop é isso, além de ser um movimento revolucionário ele
oferece oportunidades, ele oferece perspectivas de vida, a
pessoa pode pensar no futuro. Quantas pessoas saíram da
criminalidade para se dedicar ao hip hop? O movimento é bem
amplo, tem gerado emprego, renda, mas principalmente, sonho e
perspectiva de vida para uma boa parte da periferia. E está
indo na contramão da cultura de massas, desse lixão cultural
que a mídia está jogando. Este movimento é resistência.
Buzo
Informar hoje é caro. Para mim ler as revistas que eu
gostaria de ler, ler os livros que eu gostaria de ler, ter
acesso a toda informação que eu gostaria de ter, eu não tenho
condições financeiras para isso. Então, o que eu faço? Eu
leio o que chega na minha mão, o que me interessa. Então você
tem que saber usar os poucos veículos que conseguem chegar
até nós.
Ferréz
Esse negócio da imprensa é um negócio legal de falar, porque
ninguém está fazendo favor para nós. Se eu estou dentro de
uma revista, é porque tem um público X que está assinando por
minha causa, gente que está comprando todo mês, você
movimenta o negócio. Os meios de comunicação não fazem boiada
pra ninguém. Você acha que vão me pagar todo mês para ter um
texto que não tem público? A ignorância é mais cara que a
informação.
Rodrigo
Os parceiros que roubam, assistem os programas da TV para ver
quem caiu, quem não caiu. É o Notícias Populares da TV. De
repente, estes programas estão até ajudando no crime, ao
invés de combater.
Ferréz
Eu acho que sou bem representado pela mídia, sou representado
pelo canal 7, na Turma do Gueto. Sou daquele jeito, ando com
uma 12 do lado, sou violento. Em uma emissora que o Edir
Macedo dirige, alguma coisa não é intencional? Com este tipo
de novela, o que vai acontecer para o nosso povo, com os
moleques, a gente vai saber depois, porque tudo tem uma
conseqüência. Mas se é uma concessão, acho que o Giannazi
pode falar isso agora, o erro está em quem concedeu e não
está tendo fiscalização nenhuma.
Giannazi
O Ministério das Comunicações não consegue interferir na
questão da ética dos programas, cada um faz o que quer. O
correto pela lei, tem uma legislação, o programa tem que ser
educativo, tem que elevar o nível cultural da população, tem
uma série de regras. Mas são os donos das emissoras que
mandam, o que vale é a audiência, o mercado. O poder público
não consegue e nem quer controlar isso. Sobre isso tem que
tomar muito cuidado, porque a televisão faz a cooptação.
Quando o Faustão começou com o seu programa de auditório,
Perdidos na Noite, era um programa revolucionário, crítico,
na Bandeirantes, na Record, o Faustão não era nada disso que
é hoje. Daí ele foi para a rede Globo, ele já muda
totalmente, a Globo dá uma enquadrada nele. E vários outros
movimentos que foram para a mídia e foram distorcidos. Tem
que entrar lá, mas mantendo a mesma proposta. O movimento
hippie nos anos 60 foi revolucionário e foi cooptado. Hoje é
uma grife.
POLÍTICA INTERNACIONAL
Buzo
O Bush não é menos terrorista que o Sadam Hussein, que o Bin
Laden, ele é até mais terrorista, porque o governo usa o
patriotismo deles para fazer uma guerra, matam milhares de
pessoas em outros países e o povo acha bonito, apóia. O Bush
é terrorista de terno e gravata, só não fica dentro do buraco.
Rodrigo
Eu enxergo assim. Em todos o lugares do mundo os pretos estão
se dando mal, estão brigando com os brancos, outras etnias
estão se dando, brigando com a classe européia que domina o
mundo. Lá na Faixa de Gaza...Homem bomba morrendo há dez anos
está fazendo isso porque gosta?
Ferréz
É bem simples. Na sociedade americana o cara que precisa
ganhar dinheiro abre uma fábrica de ventilador. “Mas você vai
vender para quem se cada família já tem 3 ar-condicionados
dentro de casa”. Então ele pressiona o presidente, já que
apoiou a campanha dele. Inventam um esquema para que os
outros países comprem os produtos deles. Ah, então eu vou
montar a Alca, livre comércio, mas é livre só daqui pra lá,
nós não compramos nada deles. E as leis vão sendo montadas em
torno do capitalismo. É só isso.
VIOLÊNCIA/GUERRA CIVIL
Ferréz
Quem usa cocaína, quem promove o tráfico no morro, é da
elite, cheirando nos banheiros banhados a ouro. Quem anda de
carro importado porque ganhou de herança de não se sabe quem,
esses caras não podem ostentar mesmo, não. Neste país
violento que a gente tem, temos que boicotar. Esses caras têm
que tomar cuidado, porque a hora que a violência for para o
lado deles, têm que pagar com a vida mesmo
Rodrigo
Já está indo. Todos de carro blindado. Quem tem dinheiro, não
fica sossegado não.
Ferréz
Nós nos matamos porque um pisa no pé do outro, e você acha
que moleque não vai matar madame que não quer descer do
carro? Ninguém teve dó dele. Quem teve dó do moleque? Vem
aqui, vou te dar uma boa alimentação, uma boa escola, eu sou
o sistema, vou te cooptar com uma coisa boa. Ninguém, aí
chegaram as drogas, chegaram as armas, e levaram o moleque.
Rodrigo
Mas a maioria não quer nem saber de droga: “Quero ganhar o
meu dinheiro, um real daqui do meu bolso não vai sair pra
droga.” Conheço cara que se trabalhou no crime e quando deu,
parou, fez uma lojinha.
Giannazi
Aqui no Brasil se mata muito mais que na guerra do Iraque, na
guerra com os palestinos, só que não tem a repercussão
internacional porque é um país pobre, país miserável, não
aparece na mídia internacional. A nossa guerra civil é muito
pior que no Iraque, morre muito mais gente em um final de
semana. Outro dia fui no enterro de um menino lá zona sul,
morreu lá na favela, tinha 20 anos, só que uma mulher da
comunidade falou
“Olha ele morreu neste final de semana, mas no final de
semana passado no mesmo lugar morreram 4, exterminados e no
Grajaú, mais 5”
Ferréz
A mídia dá a história da conseqüência, não a causa. Ah, ele
tinha passagem...O Maluf tem um monte de passagem e ninguém
acha que ele deve estar morto. Sabe por que? Porque o menino
estava atrás do morro fumando para espantar as neuroses,
porque a periferia é uma neurose, dia inteiro sem nada o que
fazer, jogar bola o dia inteiro? Vai assistir televisão e é
só branco, só gente que você não se identifica,
Rodrigo
Não tem teatro, cinema...
Ferréz
Vai fazer o quê, vai lá no morro fumar um, relaxar um pouco
para não fazer besteira, aí os caras metem um 16 no moleque.
Toma, assina logo aí, ou pior, assina um tráfico de 7 anos.
CIDADANIA
Ferréz
Todo mundo pode entrar na Câmara dos Deputados e dos
Vereadores, basta mostrar o RG. Se você juntar cinco do seu
bairro para reclamar da sua rua, você pode subir no gabinete
do cara, e falar “Eu votei em você e quero saber como vai
ficar isso aqui”
Giannazi
E nem que não tenha votado
Ferréz
Pode ir lá, a casa é pública. Isto tinha que ser divulgado,
senão vai chegar uma hora que o cara vai chegar lá para matar
alguém, porque já não tem limite mais. Esta é a balança.
PRECONCEITO
Ferréz
A pergunta é seguinte, é só essa,
“Pai por que tem gente na periferia, pobre?”
“É tudo vagabundo, filho, que não quer trabalhar. Eu
trabalho, meu filho, entendeu, eu trabalho.”
Rodrigo
“Pai por que a maioria das pessoas negras são pobres?”
“Porque elas ficam no samba, eles não gostam de nada, ficam
no samba, fumando maconha, são vagabundos”
Fiell
“Aquele que tem tatuagem é bandido”
Castor
O movimento hip hop é a salvação da nossa espécie, a
periferia.
O pobre nunca vai ostentar, sabe por que, tem uma vertente do
rap que os caras estão comprando ouro, comprando carro da
hora. Tem que comprar mesmo, nós é sofredor, tem que andar
com os melhores bagulhos. Já começa por aí. O moleque vai se
espelhar em quem, num ladrão que tem um Audi muito louco, ou
no Ferréz que está andando a pé, descalço, que exemplo é
esse? Ai a gente está jogando conversa fora. Se o Helião
estivesse em uma metalúrgica, 10 anos atrás, tivesse estudado
o que ele estudou no rap, ele estaria ganhando um salário de
3 a 4 pau, por que ele não pode ganhar isso no rap? Por que
ele está falando da favela? Tem que ganhar mesmo para vir os
caras lá atrás e modificar a vida, tem que ser exemplo.
Rodrigo
A partir do momento que você faz alguma coisa
profissionalmente, merece retorno financeiro. Todo mundo pode
ter, por que o rapper não pode ter?
Giannazi
Como o poder público está distante da produção cultural da
periferia. E são as pessoas que estão produzindo na periferia
que estão nas escolas públicas.
Ferréz
Aí depende da situação, do envolvimento, chega uma hora que
as pessoas não são mais estranhas pra você. Se um cara ligar
e foi ele que o indicou ao editor, ao produtor, foi ele que
tirou a foto do seu disco, aí o cara é legal. Se o cara fez
um favor pra você, então o cara é firmeza, é meio hipócrita.
Eu sou assim: se é para divulgar o meu produto, eu vou.
Fiell
Eu só não vou nessas paradas se quiserem maquiar as minhas
letras.
Giannazi
Desde que você não violente a sua arte, deve ir.
Rodrigo
O hip hop só existe hoje por causa da mídia. Quem trouxe o
hip hop pra cá?
Ferréz
O próprio poder público sanciona e corta qualquer maneira do
povo ter conscientização. Por exemplo, as televisões são
concedidas e só passam porcaria o dia inteiro. O povo não
sabe votar porque não recebeu informação para isso, nunca vai
saber exigir porque também não tem informação para isso. Pára
tudo na educação, pára tudo na informação, por isso está
parado há 500 anos.
Buzo
Eu acho que a revolução se faz a passo de formiguinha, você
vai construindo, vamos pressionar sempre. Realmente é
difícil, você não tem apoio nenhum, ninguém se interessa para
que a população pobre leia.Nossos próprios livros custam mais
de R$20 e se o cara está quase à beira de passar fome, não
tem R$20 reais para comprar um livro. Só há duas opções de
lazer, a televisão e o boteco. No boteco ele vai se
embriagar, e com a televisão acho que ele ficará pior do que
estar bêbado. A maioria da população pobre está alienada e
nós temos que combater diretamente esta alienação.
Ferréz
A história do Brasil é assim, não tinha ninguém para
administrar, aí o rei falou assim: você que vem pra cá,
Ferreira, você fica então com a parte de Pernambuco...
Rodrigo
Não sei quem ficou com a Bahia, ficou com o Maranhão...E
ainda tem os holandeses, italianos, alemães e os nativos? Não
vêm reclamar de nós pretos, e os nativos brasileiros? O que
eles têm?
Ferréz
Nem a favela sobrou para eles
Buzo
Nós estamos aqui, vários de nós têm filhos, quando nosso
filho estiver na primeira, segunda série, o que eles vão
aprender? Que Portugal descobriu o Brasil. Portugal não
descobriu, invadiu, saqueou e prostituiu.
HIP HOP
Helião
O rap começou há pouco, 20 anos mais ou menos, agora é que
vão surgir os livros legais, os discos legais.
Ferréz
A parte ideológica a gente ouviu dos primeiros grupos e
tentou montar com isso. Hoje a gente está sabendo o que é
ideologia e ela ainda está sendo completada por outras
pessoas que estão vindo. As pessoas vão somando.
Giannazi
Acho que é um movimento em construção e está crescendo. Se
você levar em conta que é um movimento que sempre foi
associado à marginalidade, sempre foi reprimido, foi
estigmatizado, folclorizado, está avançando, está ocupando
espaço. Outros movimentos não tiveram isso
Ferréz
Sem tese acadêmica
Giannazi
Sem nada, na raça.
Heliao
A nossa música não tinha nada de social, aí começamos a
escutar Racionais, ler os livros de vocês, as revistas.
Fiell
Racionais foi a grande revolução.
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Aice buscando o filho Lyncoln em dia de visita na casa de sua ex-esposa na Vila Grisson (Capão Redondo)
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Aice na casa de seus pais, onde mora, no Cohab Jardim Comercial (ZS)